Nota de Repúdio e indignação

O Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital vem expressar repúdio e indignação com relação aos fatos que determinaram a morte de Edson Carlos Ribeiro, acontecido no dia 25 de setembro de 2021, na cidade de Divinópolis – MG.

Não falamos, por ora, em assassinato, porque as investigações ainda não são conclusivas neste sentido. Mas não há qualquer dúvida quanto à agressão e sua relação com a morte de Edson.

Se este crime ainda está sendo apurado, chamamos atenção para outro, que não depende de qualquer tipo de dilação probatória: o crime de racismo, que se expressa tanto por palavras quanto por gestos e, sobretudo, agressões.

Edson, homem negro de 42 anos, estava trabalhando em um de seus ofícios como segurança numa festa no parque de exposições de Divinópolis. Ao exercer sua função e anunciar a Pedro Henrique Lacerda Ferreira, homem branco, empresário de 32 anos, que não poderia permitir a entrada deste no camarote, vez que não havia sido apresentado o convite que garantia acesso ao local, foi atingido por um golpe (um soco), desferido por Pedro Henrique.

Segundo testemunhas, o agressor teria se valido de uma arma letal denominada “soco inglês”. A Polícia Civil local, na apuração dos fatos, não encontrou a arma e levantou suspeitas quanto ao grave estado de saúde precedente da vítima, deixando no ar a pergunta se a agressão teria sido, ou não, a causa da morte.

Mas não é preciso avançar, sem outros elementos de prova, para esta consequência, que só agrava ainda mais a situação, pois a agressão (desferida com violência extrema – como atestou o laudo pericial) em si já é o quanto basta para compreender a gravidade do ocorrido.

É preciso notar, primordialmente, a imensa desproporção da reação do Sr. Pedro Henrique, pelo simples fato de ter sido impedido de adentrar um local sem as credenciais necessárias.

Resta evidente que esta reação desproporcional não se explica pelo simples fato do impedimento do acesso ao local. A violência da agressão só pode ser explicada pelo racismo, afinal, o homem branco, empresário, se viu impedido de adentrar um local por um homem negro.

Lembre-se que quando questionado sobre os motivos do assassinato, Pedro Henrique Lacerda Ferreira respondeu tê-lo feito “porque quis”, não demonstrando, pois, nenhum sentimento de remorso ou arrependimento.

Todo este cenário, do princípio ao ponto em que está, demonstra a força do racismo estrutural que ainda vigora no Brasil: o homem negro, para garantir o mínimo para sobreviver, precisa se ativar em mais de um emprego e sair de casa no sábado à noite para trabalhar, mesmo ainda não se tendo superado totalmente a pandemia de Covid-19. O homem branco está no mesmo local para se divertir e não consegue conter sua revolta quando o negro, cumprindo o seu dever funcional, o impede de exercer o seu privilégio de raça, de gênero e de classe. Este é o conflito que se estabelece e a branquitude se vê tanto no direito de atentar contra a vida do trabalhador negro, quanto na tarefa de minimizar o ocorrido, dizendo que foi apenas mais uma agressão como outra qualquer, ou mesmo encontrando argumentos para dizer que vítima morreu por sua própria culpa. 

Fato é que na lógica do racismo estrutural à pessoa negra não é permitido, nem mesmo quando cumpre uma função, expressar uma fala que incomode a branquitude, como coloca Grada Kilomba ao tratar das máscaras colocadas em nossos antepassados para que, de suas bocas, não escapassem verdades incômodas. Esse caso deixa nítida a vivacidade da herança colonial não assumida em nossos dias. 

Repudiamos a prática racista cujas ferramentas necropolíticas favorecem que ações como essas continuem acontecendo cotidianamente. Nós do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital nos solidarizamos com o sofrimento da família e do povo negro que, novamente, vê-se mortificado através de sua identificação na pessoa do Edson, e reforçamos nossa posição dissonante a expressões racistas e atitudes desta natureza, deixando aqui registrada nossa indignação. Uma sociedade que se pretende democrática não pode conviver com tais atos de agressão pelo preconceito estrutural, cuja impunidade é lamentavelmente recorrente: o racismo precisa ser reconhecido para que possa, assim, ser enfrentado, devidamente punido e combatido por todos e todas.

Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital.

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