E o governo brasileiro disse SIM!

Jorge Luiz Souto Maior(*)

 Enquanto o governo grego possibilitou ao povo dizer NÃO à submissão aos interesses do capital estrangeiro, no Brasil, o governo disse SIM, fazendo-o de modo a gerar mais um sacrifício aos trabalhadores, como já houvera feito, na história recente, com as MPs 664 e 665[1].

É preciso entender que a última Medida Provisória editada pelo governo, MP 680, segue uma diretriz que já podia ser identificada desde quando se pretendeu conter as manifestações de junho por meio de uma aliança política e econômica que tenderia a ser utilizada também contra os trabalhadores.

Em junho de 2013, cheguei a formular a seguinte advertência a respeito:

…para que fique registrado que os problemas sociais ainda persistem e que, portanto, a mobilização ainda tem razão de ser, sobretudo para que nenhum ajuste de preservação de poder, como forma de superação do momento de crise, seja feito de modo a, novamente, prejudicar os trabalhadores, como se daria, por exemplo, com o acolhimento de alguma das 101 (cento e uma) providências flexibilizantes requeridas pela CNI, com o não acolhimento da igualdade integral de direitos trabalhistas aos empregados domésticos e, principalmente, com a aprovação dos projetos de lei do ACE e da terceirização, perigo este que se torna mais concreto principalmente agora que o anúncio da redução da tarifa em São Paulo foi feito em uma coletiva com a presença do Prefeito Haddad e do Governador Alckmin.[2]

E a fórmula, infelizmente, se consagrou: desgasta-se politicamente o governo e este para se manter no poder agrada o setor econômico com a promoção da “venda” dos espaços públicos e a suspensão da ordem constitucional para realização de eventos que favorecem a grandes negócios comerciais, mantendo-se sob vigilância e mediante violenta opressão os movimentos populares de resistência, e ainda promove a redução dos direitos dos trabalhadores. Não se esqueça que após as manifestações de junho, o governo, além de promover a Copa de 2014 na forma como se deu, com suspensão da ordem constitucional, ainda editou as Medidas Provisórias 664 e 665, que retiraram direitos dos trabalhadores, deu alimento à retomada da PL 4.330/04, que busca a ampliação da terceirização, e, agora, editou a MP 680, que representa um golpe de morte no Direito do Trabalho e na classe trabalhadora.

Assim, estão conseguindo levar adiante o ideário conservador nacional de destruir a CLT, reduzindo direitos dos trabalhadores, e tudo para atender aos interesses do capital estrangeiro, sob a falsa retórica de uma crise, que é eterna vale lembrar, e que sempre esteve presente em todo argumento a favor da redução de direitos trabalhistas nos últimos 27 (vinte e sete) anos, pelo menos.

E não me venham falar em necessidade econômica para a preservação da competitividade das empresas, pois se o sacrifício dos trabalhadores se apresenta como requisito necessário para salvaguardar as empresas, há algo muito errado no funcionamento estrutural da economia, que não vai se resolver por uma medida recessiva que atinge apenas uma parcela da sociedade, composta exatamente por aqueles que produzem valor e aos quais nunca se permitiu participar de forma igualitária da riqueza gerada.

Não há, afinal, nenhuma garantia que a mera redução de custos das empresas solucione problemas de crises estruturais. Aliás, o que se pode prever, ao ser assumida a lógica recessiva, é exatamente a retração do mercado e a ampliação da crise, com benefício apenas para quem conta com o mercado consumidor externo e ainda estimulando monopólios.

De todo modo, como já dito no “Manifesto contra Oportunismo e em Defesa dos Direitos Sociais”, publicado em 2009, quando em razão da crise de 2008, seguimentos econômicos também reivindicavam a redução de direitos trabalhistas,

“a superação de uma crise econômica estrutural requer sacrifícios de cima para baixo e não de baixo para cima. Não se promove uma sociedade, salvando empresas e deixando pessoas à beira da fome. Se há um problema na conjuntura econômica, que atinge a todos indistintamente, e não apenas a uma ou outra empresa, é necessário, então, o sacrifício conjunto, começando pelos próprios empresários e passando por diversos outros setores da sociedade (profissionais liberais, servidores públicos, senadores, deputados, prefeitos, governadores, juízes etc.). É impensável que se busque a solução de problemas econômicos estruturais do país com o sacrifício apenas de trabalhadores cujo salário já está entre os mais baixos do mundo.”[3]

Para atacar a crise não se viu nenhuma redução dos lucros das empresas e de ganhos de governantes, políticos, desembargadores, juízes, diretores de grandes empresas e acionistas. O que se viu foi a concessão de benefícios fiscais à FIFA; a realização de ajustes com grandes empreiteiras dos quais adveio a retomada do projeto de ampliação da terceirização; um permissivo, pela falta de fiscalização, de uma maior precarização nas condições de trabalho, com o consequente aumento dos acidentes do trabalho; uma intensa repressão policial a greves e a movimentos sociais etc. E neste quadro em que os trabalhadores historicamente são tratados como inimigos, diante de nova “crise” são chamados de “parceiros” ou “colaboradores”, para oferecerem o seu sacrifício em prol do engrandecimento geral da nação ou, meramente, do fortalecimento da economia, que é uma economia que promove, como se sabe, extração de valor do trabalho em benefício de alguns poucos e, de forma mais precisa, de empresas de capital estrangeiro.

E o que diz a MP 680, exatamente?

A MP 680, de 06/07/15, instituiu o que chamou de Programa de Proteção ao Emprego, com os seguintes objetivos: “I – possibilitar a preservação dos empregos em momentos de retração da atividade econômica; II – favorecer a recuperação econômico-financeira das empresas; III – sustentar a demanda agregada durante momentos de adversidade, para facilitar a recuperação da economia; IV – estimular a produtividade do trabalho por meio do aumento da duração do vínculo empregatício; e V – fomentar a negociação coletiva e aperfeiçoar as relações de emprego” (art. 1º).

Essa tal “proteção ao emprego” se daria, concretamente, nos termos da MP, por intermédio da redução temporária, em até trinta por cento, da jornada de trabalho dos empregados, com a redução proporcional do salário (art. 3º.), permissivo concedido às empresas que aderirem, até 31/12/15, ao PPE e se “encontrarem em situação de dificuldade econômico-financeira, nas condições e forma estabelecidas em ato do Poder Executivo federal” (art. 2º).

Essa redução poderá ter duração de seis, com possibilidade de prorrogação para 12 meses, e terá como condição a “celebração de acordo coletivo de trabalho específico com o sindicato de trabalhadores representativo da categoria da atividade econômica preponderante, conforme disposto em ato do Poder Executivo” (§ 1º, art. 3º.).

Em compensação pela redução temporária, que “deverá abranger todos os empregados da empresa ou, no mínimo, os empregados de um setor específico” (§ 2º, art. 3º), a MP confere algumas “vantagens” aos trabalhadores: a) garantia do recebimento do salário mínimo a ser pago pela empresa; b) compensação pecuniária equivalente a cinquenta por cento do valor da redução salarial e limitada a 65% (sessenta e cinco por cento) do valor máximo da parcela do seguro-desemprego, enquanto perdurar o período de redução temporária da jornada de trabalho; c) garantia de emprego durante o período em que vigorar a adesão da empresa ao PPE, estendendo-se ao prazo equivalente a um terço do período de adesão, após cessada esta.

Dá-se a impressão que os trabalhadores saem beneficiados porque lhe são garantidos os empregos e ainda recebem uma compensação monetária paga pelo governo de até 65% do seguro-desemprego.

Mas o abalo é enorme.

Primeiro, porque a lógica da MP 680 agride a pedra de toque do Direito do Trabalho, cuja função é a de melhorar a condição social dos trabalhadores e não a de criar mecanismos para adaptação a um modelo econômico falido (art. 7º, CF).

Segundo, porque atribui aos sindicatos, por meio da negociação coletiva, o papel de algozes dos direitos dos trabalhadores e não de protagonistas na luta por melhores condições. Esse, aliás, é um dos piores problemas da lógica trazida pela MP, o a da fragilização da atuação sindical, já que as grandes empresas, que possuem forte poder negocial, diante do permissivo ou, mais propriamente, incentivo estatal, saberão jogar os trabalhadores contra os sindicatos e colocar sindicatos uns contra os outros, expondo-os à concorrência do “que quem cede mais para garantir empregos”, punindo os “xiitas”.

Terceiro, porque nos impulsiona a raciocinar na perspectiva do mal menor, naturalizando a exploração e o sofrimento dos trabalhadores, para preservar um sistema que há longa data prioriza uma pequena parcela da sociedade e que, no caso de um capitalismo periférico e dependente como o Brasil, favorece a evasão de divisas.

Há, de todo modo, problemas jurídicos insuperáveis para o alcance dos propósitos politicamente nebulosos e economicamente equivocados da MP 680.

A respeito do alcance jurídico da negociação coletiva, cumpre reproduzir o que já disse por ocasião de apelo empresarial semelhante, em 2009:

É neste sentido que se consagrou no direito comparado a idéia de que os instrumentos coletivos de natureza normativa (acordos coletivos, convenções coletivas e sentenças normativas) têm por objetivo melhorar as condições sociais e econômicas do trabalhador, não se prestando, pois, à diminuição das garantias já auferidas.

É totalmente equivocado, desse modo, considerar que acordos e convenções coletivas de trabalho possam, sem qualquer avaliação de conteúdo, reduzir direitos trabalhistas legalmente previstos, simplesmente porque a Constituição previu o “reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho” (inciso XXVI, do art. 7º.) e permitiu, expressamente, por tal via, a redução do salário (inciso VI, art. 7º.), a compensação da jornada (inciso XIII, art. 7º.) e a modificação dos parâmetros da jornada reduzida para o trabalho em turnos ininterruptos de revezamento (inciso XIV, do art. 7º.).

Ora, o artigo 7º., em seu “caput”, deixa claro que os incisos que relaciona são direitos dos trabalhadores, ou seja, direcionam-se a um sujeito específico, o trabalhador, não se podendo entendê-las, conseqüentemente, como algum tipo de proteção do interesse econômico dos empregadores. Além disso, as normas são, inegavelmente, destinadas à melhoria da condição social dos trabalhadores.

Não se pode ver nos preceitos fixados nos incisos do art. 7º. os fundamentos jurídicos para fornecer aos empregadores a possibilidade de, por um exercício de poder, induzirem os trabalhadores, mesmo que coletivamente organizados, a aceitarem a redução dos direitos trabalhistas legalmente previstos, ainda mais quando tenham sede constitucional e se insiram no contexto dos Direitos Humanos.

O inciso VI, do art. 7º., por exemplo, que cria uma exceção ao princípio da irredutibilidade salarial, permitindo a redução do salário, e nada além disso, por meio de negociação coletiva, insere-se no contexto ditado pelo “caput” do artigo, qual seja, o da melhoria da condição social do trabalhador e não se pode imaginar, por evidente, que a mera redução de salário represente uma melhoria da condição social do trabalhador. Assim, o dispositivo em questão não pode ser entendido como autorizador de uma redução de salário só pelo fato de constar, formalmente, de um instrumento coletivo (acordo ou convenção).

A norma tratada, conseqüentemente, só tem incidência quando a medida se considere essencial para a preservação dos empregos, atendidos certos requisitos. A Lei n. 4.923/65, ainda em vigor, mesmo que parte da doutrina assim não reconheça, pois não contraria a Constituição, muito pelo contrário, fixa as condições para uma negociação coletiva que preveja redução de salários: redução máxima de 25%, respeitado o valor do salário mínimo; necessidade econômica devidamente comprovada; período determinado; redução correspondente da jornada de trabalho ou dos dias trabalhados; redução, na mesma proporção, dos ganhos de gerentes e diretores; autorização por assembléia geral da qual participem também os empregados não sindicalizados.

A própria Lei de Falência e Recuperação Judicial, n. 11.101/05, de vigência inquestionável, parte do pressuposto ao respeito à política de pleno emprego, à valorização social do trabalho humano e à obrigação de que a livre iniciativa deve assegurar a todos uma existência digna, conforme os ditames da justiça social.

A recuperação judicial é um mecanismo jurídico, cuja execução compete ao Estado, por intermédio do Poder Judiciário, e tem por finalidade preservar as empresas que estejam em dificuldade econômica não induzida por desrespeito à ordem jurídica e que tenham condições de se desenvolver dentro dos padrões fixados pelo sistema, tanto que um dos requisitos necessários para a aprovação do plano de recuperação é a demonstração de sua “viabilidade econômica” (inciso II, do art. 53, da Lei n. 11.101/05).

O art. 47, da Lei n. 11.101/05, é nítido quanto a estes fundamentos: “A recuperação judicial tem por objetivo viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica.” (grifou-se)

Fácil verificar, portanto, que tal lei não se direciona à mera defesa do interesse privado de um devedor determinado. A lei não conferiu um direito subjetivo a quem deve, sem se importar com a origem da dívida e a possibilidade concreta de seu adimplemento. Não estabeleceu, conseqüentemente, uma espécie de direito ao “calote”, até porque sem a possibilidade concreta de manter a atividade da empresa com base em tais postulados esta deve ser conduzida à falência (art. 73, da Lei n. 11.101/05).

O que há na lei é a defesa das empresas numa perspectiva de ordem pública: estímulo à atividade econômica, para desenvolvimento do modelo capitalista, preservando empregos e, em conformidade com a Constituição, visualização da construção de uma justiça social.

A lógica do ordenamento jurídico que se direciona à manutenção da atividade produtiva das empresas é a da preservação dos empregos, admitindo como meios de recuperação judicial, a “redução salarial, compensação de horários e redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva” (art. 50, inciso VIII, da Lei n. 11.101/05).

Para tanto, exige-se, ainda, a “exposição das causas concretas da situação patrimonial” da empresa e “das razões da crise econômico-financeira” (inciso II, do art. 51), além da “demonstração de sua viabilidade econômica” (inciso II, do art. 53), dentre diversos outros requisitos, sendo relevante destacar que a dispensa coletiva de empregados, em respeito ao art. 7º, I, da Constituição, não está relacionada como um meio de recuperação da empresa (vide art. 50).

Como se vê, a ordem jurídica não autoriza concluir que os modos de solução de conflitos trabalhistas possam ser utilizados como instrumentos de meras reduções dos direitos dos trabalhadores, sendo relevante realçar os fundamentos que lhe são próprios, conforme acima destacado:

a) fixar parâmetros específicos para efetivação, em concreto, dos preceitos normativos de caráter genérico referentes aos valores humanísticos afirmados na experiência histórica;

b) melhorar, progressivamente, as condições sociais e econômicas do trabalhador.[4]

Ou seja, só se pode chegar ao efeito preconizado pela MP 680 dentro dos parâmetros jurídicos trabalhistas e respeitando-se o projeto constitucional. O argumento da crise, portanto, para atingir os trabalhadores deve se inserir em um padrão de sacrifício geral, atingindo, primeiramente, e de forma mais intensa, as camadas privilegiadas da sociedade.

E dentro desse contexto de autêntico pacto social, há de definir que tipo de sociedade se está salvando, afinal. Vamos salvar empresas multinacionais que ao longo de décadas exploraram o trabalhador brasileiro, acumulando riquezas? Vamos salvar empresas que chegaram à situação de dificuldade econômica por conta de má gestão de descapitalização irresponsável? Vamos salvar empresas que jamais respeitarem direitos trabalhistas ou cumpriram obrigações fiscais e previdenciárias? Vamos salvar um Estado que arrecada parte da riqueza produzida para favorecer, mediante empréstimos, a reprodução desse modelo de acumulação socialmente irresponsável? Vamos nos sacrificar para manter privilégios? Vamos nos sacrificar para favorecer a manutenção de um modelo de exploração internacional do trabalho, que remete todos os ganhos de capital aos países do capitalismo central?

Dito de outro modo: vamos salvar um modelo que produz desigualdade e sequer tem sido capaz de garantir aos cidadãos serviços públicos mínimos em áreas consideradas pela Constituição como fundamentais: educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância, e assistência aos desamparados? (art. 6º, CF)

Assim, mesmo para se chegar a um pacto social deve-se conseguir, de forma clara e objetiva, responder a uma indagação fundamental: qual é o projeto? Ou ainda: o que se está fazendo concretamente para se alcançar uma sociedade verdadeiramente igualitária, na qual todos possam viver com dignidade?

Sem essas definições, que trazem a necessidade de se fazer enfrentamentos com relação ao grande capital, que, ademais, foi acumulado ao longo de décadas de exploração do trabalho, pedir aos trabalhadores que paguem a conta da crise é um desproposito sem tamanho, uma afronta à inteligência humana. É, na verdade, uma enorme violência!

Mas não nos furtemos a enfrentar de forma mais precisa os termos, contradições e formas fugidias da MP, visualizada, então, no contexto de situações individualizadas.

Destaque-se, primeiramente, a retórica de que o governo vai pagar uma compensação pecuniária aos trabalhadores. Ora, o dinheiro do FAT é um patrimônio da própria classe trabalhadora. Assim, os próprios trabalhadores estariam pagando parte de seu salário, mas para favorecer a um interesse econômico das empresas. Verdade, que esse dinheiro também serve aos propósitos do BNDES, mas isso só agrava a situação, pois de fato o pagamento aos trabalhadores, para aceitarem redução de salários, conferindo às empresas, consequentemente, menor custo, representa uma forma de fomento indireto, que as empresas sequer precisam pagar.

A MP, além disso, não exige comprovação da dificuldade econômica, como exige, por exemplo, a Lei n. 4.923/65, acima citada, comprovação esta que somente pode se dar, de forma plena, com realização de uma auditoria independente e não por mera alegação.

A redução de jornada precisaria, também, ser acompanhada de definição clara quanto ao ritmo de trabalho, para evitar a extração de mais valor na jornada menor.

Além da necessidade de uma redução, na mesma proporção, de ganhos de diretores, acionistas, fomentadores e credores de toda espécie, a MP ainda teria que estabelecer que a situação temporária se inseriria necessariamente no contexto da visualização da retomada da situação inicial. Não há uma compensação equivalente, como supõe a MP, com a preservação dos empregos durante a redução, e a extensão dessa “estabilidade” pelo prazo de um terço do tempo da redução. Isso só se daria com a preservação do emprego pelo período de pelo menos o dobro do tempo da redução (fórmula adotada, por exemplo, com o trabalho no dia destinado à folga semanal e na negação ao direito de férias), com a recomposição dos valores dos salários, incluindo as perdas inflacionárias do período, já que o princípio do Direito do Trabalho, calcado no projeto constitucional, é o da melhoria da condição social dos trabalhadores, repita-se.

Certo é que não há o mínimo sentido em se exigir dos trabalhadores um sacrifício para depois se retomar à mesma situação anterior, que foi, ademais, a que deu origem à crise e que tem dado causa a tantos desajustes sociais.

Já que vamos visualizar sacrifícios, para superar problemas estruturais, que o façamos dentro de um projeto com vistas a melhorar as coisas e não para deixá-las exatamente como estavam antes das medidas adotadas, correndo o risco de piorá-las.

À adaptação e à naturalização da trágica situação em que há muito vivem milhões de brasileiros digamos NÃO!

São Paulo, 07 de julho de 2015.


(*) Professor livre-docente de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito da USP.

[1]. SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. Tragédias anunciadas: as medidas provisórias de Dilma. Disponível em: http://blogdaboitempo.com.br/2015/02/02/tragedias-anunciadas-as-medidas-provisorias-de-dilma/

[2]. SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. A redução da tarifa e os trabalhadores. Disponível em: http://cartamaior.com.br/?/Coluna/A-reducao-da-tarifa-e-os-trabalhadores/28705, acesso em 07/07/15.

[3]. Disponível em: http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI77229,61044-Manifesto+contra+oportunismos+e+em+defesa+do+direito+social, acesso em 07/07/15.

[4]. SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. Negociação coletiva de trabalho em tempos de crise econômica. Disponível em: http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI76615,81042-Negociacao+Coletiva+de+Trabalho+em+tempos+de+crise+economica, acesso em 07/07/15.

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Dialética das manifestações

       Jorge Luiz Souto Maior

As manifestações ocorridas em 15 de março de 2015 trouxeram à tona várias contradições que constituem elementos altamente relevantes para a compreensão dos percursos históricos e da dinâmica da sociedade em que vivemos.

  1. De junho de 2013 a março de 2015

Um primeiro elemento importante para essa compreensão é a constatação de que as manifestações ocorridas em março de 2015 foram muito diferentes daquelas ocorridas em junho de 2013.

Nas manifestações de junho de 2013 havia, por certo, uma complexidade enorme de pretensões e até se pode dizer que em parte há coincidência em alguns pleitos que se renovam agora em 2015, notadamente, no aspecto da corrupção. Ocorre que aquele movimento, que teve origem como manifestação de esquerda, encabeçado pelo MPL, e que se ampliou bastante em vários sentidos, como já dito, não abandonou o mote comum que foi a defesa dos direitos sociais: ensino público de qualidade, melhoria na saúde pública e gratuidade do transporte público. As manifestações de junho, além disso, serviram de estímulo a manifestações populares importantes nas periferias das cidades, à revitalização do movimento trabalhista por meio de greves que foram deflagradas até mesmo por fora da organização sindical, e a uma forte mobilização de resistência à realização da Copa do mundo de futebol no Brasil em razão do seu significado de negócio espúrio, que se valeu, inclusive, da exacerbação da exploração do trabalho e da supressão de vários preceitos constitucionais para favorecimento de alguns poucos interessados, econômica e politicamente falando.

Aos que participaram das manifestações de 15 de março de 2015, sob o fundamento único da defesa da moralidade, não se importando ou não querendo mesmo se envolver com quaisquer outros aspectos, cumpre, Mostra os dentesao menos ter a percepção da complexidade que também este momento envolve e aos efeitos a que sua participação se presta, não se fazendo referência, pois, aos que sabem exatamente o que se passa e que pretendem, precisamente, que os efeitos em questão se produzam.

  1. Movimento contra a corrupção?

A ninguém pode restar dúvida de que a corrupção é condenável. Aliás, me atreveria a dizer que a corrupção, sobretudo quando resta impune, o que, infelizmente, tornou-se regra, não é apenas um crime mas também a concausa de vários outros crimes, até os aparentemente mais distantes como pequenos furtos, que às vezes se tornam trágicos, ou mesmo “meras” brigas de trânsito, tudo por conta da sensação de desajuste que a impunidade gera.

Indignar-se contra a corrupção é, de maneira insofismável, extremamente importante.  Mas se as pessoas que estão indo às ruas contra a corrupção estão de fato preocupadas em extirpar esse mal da realidade brasileira é necessário primeiro que ajam com a necessária responsabilidade. Ora, pedir o impeachment da Presidenta da República sem que aja prova concreta de sua participação em qualquer prática de ato de corrupção é uma irresponsabilidade extremamente grave, pois que põe em risco as próprias bases democráticas. Ainda que se admita que expressar a vontade de que a Presidenta renuncie ou que seja submetida a um processo de impeachment esteja dentro dos padrões da democracia, vez que esta garantiu a liberdade de expressão e institucionalizou o processo de impeachment, Fascioa própria forma da demanda denuncia o seu real alcance. Ora, se o impeachment tem por base a corrupção, deve-se atribuir conseqüências também a todos os corruptores e aqui se refere às empresas e não apenas a seus prepostos. Da mesma forma, todos os sonegadores devem ser alvo da mesma indignação, assim como todos os políticos e Partidos que de um modo direto ou indireto estejam ligados a atos da mesma natureza.

Ou seja, sem um acerto de contas pleno com a corrupção, qualquer discurso moralizante é oportunista e serve apenas para reforçar práticas de favorecimentos, sobretudo quando se pensa em punição como efeito da ação política e não como efeito de uma prática ilícita efetivamente comprovada.

Não estou dizendo que as irregularidades descobertas estão isentas de punição antes que todas as irregularidades sejam igualmente sabidas e punidas, pois isso praticamente inibiria qualquer ação corretiva em todos os níveis da vida em sociedade. Só estou dizendo que é preciso que as punições tenham base fática sólida e que não sejam fruto de uma ação política construída a partir de falaciosas razões moralizantes, que apontam falsos inimigos e soluções ilusórias.

Além disso, a punição à corrupção não é elemento que por si altera as bases da sociedade brasileira, cabendo lembrar que no ano passado, 2014, enquanto jovens e categorias de trabalhadores lutavam contra a realização da Copa no Brasil, em razão da corrupção, dos assaltos cometidos à Constituição brasileira e da violência cometida contra os direitos dos trabalhadores, muitos dos atuais manifestantes estavam nos estádios chamando aqueles manifestantes de vândalos e antipatriotas.

  1. Enfrentando os problemas do Brasil?

As pessoas que foram às ruas pedir o impeachment da Presidenta no último dia 15 de março apresentaram-se como arautos da moralidade e descobriram, todas de uma vez, que os problemas do Brasil se resumem em um nome: Dilma.

Não sou defensor do governo Dilma, muito menos nesta última edição, na qual este já se mostrou bastante contrário aos interesses da classe trabalhadora, como, aliás, foram todos os governos petistas, no âmbito federal, desde 2003. Mas daí a dizer que todos os problemas do Brasil são culpa do PT ou, mais ainda, da Presidenta Dilma, vai uma distância estratosférica.

Bom, seria preciso um livro para descrever os problemas do Brasil, que se tem construído ao longo dos tempos: uma história de troca de favores, de conchavos, de jeitinhos, de exploração, de segregação, de preconceitos, de repressão, de desigualdades… De impunidades, de sonegações, de desrespeitos.

Claro, é também uma história de muitos valores: de alegria, de descontração, de criatividade… De solidariedades, de confiança, de crenças, de esperanças e de lutas, muitas lutas.

O Brasil tem de tudo, do bom e do pior. Mas é bastante equivocado pensar o Brasil a partir dele mesmo, como se houvesse um Brasil pela própria natureza. O Brasil não é só o Brasil. É um país inserido em um mundo que reproduz, de forma praticamente hegemônica, a lógica do modelo de produção capitalista, que se caracteriza pela transformação das pessoas em proprietárias, uns dos meios de produção e outros (em quantidade muito maior) de “força de trabalho”, sendo que a “troca” dessas mercadorias serve à valorização do capital, num círculo que se completa com o consumo e favorece a acumulação do capital. O capitalismo, portanto, é antes de tudo uma relação social, que desconsidera as pessoas enquanto seres humanos, sendo vistas apenas ou como proprietárias ou como consumidoras, mantendo, claro, abertas as portas da esperança de que um dia a “vida vai melhorar” como resultado do esforço próprio, que, claro, começa com o sacrifício da venda da força de trabalho (que não raro não sai disso até que se dá “graças a Deus” por ainda se poder fazer isso vez que tantos outros sequer conseguem fazê-lo, em razão do eterno fantasma do desemprego). Os Estados – e suas ordens jurídicas – se institucionalizam para estimular essas trocas que não ocorrem apenas no âmbito interno, mas também internacionalmente. As correlações entre os Estados tendem a atender interesses de grandes corporações que são cada vez mais poderosas, no sentido mesmo de impor aos Estados (países) a concessão de “favores” tributários e reduções trabalhistas, interferindo na política interna, valendo-se (quando não criando) de todos os desajustes institucionais que forem encontrando pelo caminho.

O que se tem, portanto, internacionalmente, são países periféricos cumprindo uma pauta política e econômica que favorece aos interesses econômicos daqueles países que detêm poder (e assim a Suécia mantém seu “belo exemplo” do capitalismo que deu certo). E, internamente, uma sociedade de pessoas que se interligam apenas como agentes de trocas e que se identificam mais com as mercadorias que possuem do que consigo mesmas ou com outros que poderiam ser considerados seus semelhantes. Uma sociedade individualista, de pessoas pretensamente empreendedoras, em busca de dinheiro, fama, sucesso e luxo, ainda que, em dado momento, ainda estejam no estágio probatório. fora-dilma8Ou seja, uma sociedade da “aparência”, na qual as instituições criadas exatamente para tentativa de correção dos males do capitalismo (vide, por exemplo, os Direitos Humanos) valem apenas como anteparos esporádicos.

Claro, é também uma sociedade bastante desigual econômica e culturalmente falando, repercutindo nas enormes diferenças de oportunidades, que não raro desembocam em criminalidade. E aí se processa um espetáculo interessante, pois as pessoas vítimas de crimes, que muitas vezes são brutais, só então se percebem como tais, mas não no sentido de vítimas de um sistema que desiguala pessoas, mas de um Estado que não cuida da “segurança pública”, como se prender metade da população e diminuir a maioridade penal fossem as soluções dos problemas do capitalismo, ou como se a “pacificação” social fosse o resultado concreto de uma “força policial tática”. Não percebem, ainda, que a criminalidade também é fruto da própria degradação humana imposta pela coisificação que se verifica em todos estratos econômicos da sociedade.

Não percebem, por fim, porque não querem, a violência cotidiana da qual são vítimas as pessoas que não têm condições materiais de sobrevivência, quase sempre tratadas como criminosos em potencial, como eternos “suspeitos”, mesmo quando estejam sofrendo em trens, metrôs, hospitais e trabalhos subumanos.

  1. A fragilidade do discurso

Diante desse quadro, apresentado de forma bastante resumida, no qual teria que se dar destaque às diversas formas de exploração do trabalho, que são, na essência, degradantes, mesmo que o ambiente de trabalho seja maravilhoso, dadas as estratégias de gestão que tentam tirar do trabalhador cada vez mais força de trabalho sem que lhe permita perceber isso, restam bastante simplórios e porque não dizer totalmente descolados da realidade, servindo, aliás, para reforçar a lógica das aparências, os “gritos” de ordem expressos nas manifestações de 15 de março.

No geral, as reivindicações foram:

  1. Moralistas. O maior grito que se expressou foi contra a corrupção, com a preconização de um efeito imediato, “Fora Dilma”. Mas os manifestantes desfilaram, orgulhosamente, juntos com sonegadores e até contraventores, para não falar daqueles que poderiam ser considerados, aos olhos dos moralistas, adeptos de práticas ofensivas à tradição da “família brasileira”. Além disso, o moralismo defendido foi parcial e seletivo, pois nenhuma indignação se expressou contra a atitude conivente do mesmo Estado frente às empresas que sonegam tributos e que desrespeitam, reiteradamente, a legislação trabalhista.
  2. Nacionalistas. Algumas falas expressaram sentimentos nacionalistas: “vim defender a minha pátria”; “mostrar que tenho orgulho de ser brasileiro” (“sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”) ou “verás que um filho teu não foge à luta”. Mas como assim orgulho de um país que teve quatrocentos anos de convivência com a escravidão, que ainda preserva lógicas racistas, que expressa valores machistas, que é extremamente desigual, que ainda convive com trabalho em condições análogas às de escravos nos campos e nas cidades, que ainda não conferiu direitos às empregadas domésticas, que não garante o respeito à Constituição e aos Direitos Humanos, que sucateou o ensino público, que privatizou a saúde pública etc etc etc?
  3. Anticomunistas. Como já é uma tradição brasileira, que alimentou duas ditaduras, em manifestações em “defesa da ordem” há sempre o grito que expressa um medo do “comunismo”, mesmo sem se saber do que, de fato, se está falando. Essas falas novamente estiveram presentes: “O Brasil não vai virar uma Cuba”; “Vai prá Cuba”; e até “Chega de doutrinação marxista. Chega de Paulo Freire”… São falas que além de ignorantes quanto ao seu conteúdo servem apenas para provocar medos do desconhecido, abrindo a porta para o incremento de práticas reacionárias, ou seja, que preservam o estado de coisas em conformidade com os interesses daqueles que já se encontram bem situados na sociedade de classes.
  4. Retóricos. Muitos foram os “gritos” meramente retóricos, tais como: “É o povo nas ruas de novo”; “A manifestação do dia 13 é de vagabundo e a do dia 15 de trabalhador”; e “Queremos mudança”. De fato, não era o povo nas ruas e sim pessoas das classes e camadas médias, no caso seus setores mais conservadores e mais altos, que, em verdade, não almejam mudanças concretas nos arranjos sociais. E não se diga que havia também algumas pessoas pobres, pois quando se fala em “classe” o que tem em mira é um sentimento, é a expressão de valores que caracterizam determinados interesses. Os interesses expressos eram, no geral, das classes médias altas e não os interesses populares, os que dependem de políticas públicas e até assistenciais para sobreviver.
  5. Neoliberais. Bem ao contrário do que se ouviu em junho de 2013, em março de 2015 as falas foram de afirmação da lógica neoliberal, no sentido de negar o assistencialismo de Estado ou mesmo da participação do Estado na economia. Expressaram-se, então, as frases: “Menos Estado, menos impostos” e o “ O PT quebrou o Brasil”, como se algum país capitalista do mundo pudesse abrir mão das bases de sustentação do modelo que se tornaram necessárias após as guerras mundiais.
  6. Tresloucados e golpistas. Claro, nas manifestações de toda espécie há sempre os tresloucados, como alguém que aproveitou para pedir “Fora Valdívia”, mas não é em qualquer ato político que se verá manifestações que flertam com a ditadura, como se viu em de 15 de março: “A PM é nossa amiga”; “Fora Supremo, Fora Dilma. Queremos só Ministério Público e Polícia Federal”; “SOS Forças Armadas – Reforma Política só as Forças Armadas podem fazer”…

Como se vê, o conteúdo dos “gritos” é bastante revelador da ausência de um sentimento verdadeiramente comprometido com algum projeto POPULAR,choque refletindo, no geral, apenas uma insatisfação parcial, com ares de preservação do “status quo”, vez que nenhum problema real da desigualdade social brasileira foi sequer aventado. Aliás, a lógica da desigualdade acabou sendo reafirmada.

E depois desse “show de horrores” alguns ainda tiveram a coragem de expressar: “Fizemos a nossa parte”, como se o compromisso com os valores expressos se limitasse a pedir a punição de uma pessoa e que se nada for feito já não é mais culpa dos que se manifestaram.

  1. Movimento consciente ou massa de manobra?

As pessoas que saíram às ruas em 15 de março no geral se dizem orgulhosos de sua consciência, mas talvez seja oportuno que façam algumas reflexões, para enxergarem o quanto foi distinto o tratamento dado pelas forças do Estado aos movimentos de junho de 2013 e a este de março de 2015.

E será muito pouco esclarecedor buscar a explicação no fato de que na manifestação de 15 de março não havia “Black blocs”, tratando-se de um “movimento pacífico”. Ora, a manifestação do dia 15 de março foi “chamada” por boa parte da grande imprensa, tendo sido até mesmo apontada, em um desses veículos, como “programa” para o final de semana.

A Polícia Militar se preparou para “receber” os manifestantes, de forma a impedir que qualquer distúrbio atrapalhasse a manifestação.

Em São Paulo, uma partida de futebol teve seu horário alterado para viabilizar que algumas pessoas tivessem a oportunidade de participar dos dois “eventos”.1

Para facilitar o acesso à Av. Paulista, o Metrô abriu as catracas, ou seja, permitiu que se viajasse gratuitamente, sob o argumento, até verdadeiro, de que as pessoas que estavam indo para a Av. Paulista não sabiam como funcionava o metrô e por conta da quantidade de pessoas nos trens. Mas, quando os metroviários fizeram greve em 2014 e reivindicaram a possibilidade de abrirem a catraca para não prejudicar a população, sendo que, para tanto, fariam greve trabalhando, o mesmo Metrô disse que não poderia aceitar por questões de impedimento jurídico. Além disso, um enorme número de pessoas frequenta o metrô diariamente e em condições muitas vezes subumanas.

A Polícia Militar, aliás, durante todo o dia incentivou o comparecimento de pessoas na manifestação, informando número de participantes bem superior ao que de fato havia. Polícia Militar que, cumpre reparar, age de forma muito diferente quando se trata de “suspeitos” negros ou em “diligências” em favelas.

O próprio governador Geraldo Alckmin, em seu twitter, referiu-se elogiosamente à manifestação: “Hoje foi mais um dia inesquecível para a história democrática brasileira” (15/03/15 às 19h34).

Por fim, vale verificar o quanto o argumento da moralidade tem poupado as corporações empresariais, que até chegam a ser tratadas por parte da grande mídia como vítimas do governo e o quanto delatores, que só resolveram falar depois que foram pegos, são transformados em quase heróis nacionais.

  1. Ascensão da direita

O fato é que no geral havia um sentimento reacionário na manifestação de março de 2015, ainda que seu mote fosse: “queremos mudança”. Ocorre que a mudança em termos de moralização da política, bastante pertinente, cabe sempre frisar, não correspondia e não corresponde, no geral, a uma consciência em torno das mudanças sociais necessárias para elevação da condição econômica de todos, na perspectiva ao menos de uma condição digna de vida. O que se almejou, em concreto, foi a preservação das bases do modelo de sociedade que lhes conferiu, historicamente, uma posição social privilegiada e que se vê em risco diante do anúncio da crise econômica.

Não houve, assim, uma ascensão da direita, considerando-se esta um sentimento de manutenção da ordem que privilegia determinada classe social, mas a mera manifestação explícita da sua existência.

Cumpre não desprezar, de todo modo, o fator político local no qual um pretenso governo de esquerda chegou ao poder e procurou se manter no poder mediante a chantagem do medo, seqüestrando, assim, movimentos sociais e trabalhistas, ao mesmo tempo em que aprisionou o sentido radical e imanente da esquerda. babáQuando o argumento moralizador do governo foi desmascarado, a esquerda, no geral, comprometida com a lógica do mal menor, não foi capaz de se posicionar criticamente, abrindo espaço para que a defesa da ética fosse apropriada por porta-vozes do sentimento de direita. Tiveram, assim, a oportunidade de tornar os argumentos de direita mais sedutores, apoiados na retórica da busca da verdade, mesmo que, de fato, não tivessem qualquer preocupação de imanência, limitando-se a desvelar as artimanhas políticas do PT.

  1. Isso muda o mundo?

Que fique muito claro: os argumentos de direita não pretendem mudar o mundo, procurando, por sua própria essência, manter a realidade tal qual se encontra ou, no máximo, alterar algumas poucas coisas para que tudo continue exatamente como está, já que partem da crença de que outro mundo não é possível; que a desigualdade é fruto da diversidade de competências; que a sorte de cada um depende exclusivamente de suas habilidades individuais.

As manifestações de março de 2015 não propuseram, conforme se depreende dos próprios conteúdos explicitados, mudar o Brasil, e sim superar um desajuste na estrutura de poder, para que as coisas continuem como sempre foram, partindo-se de um pressuposto completamente indemonstrável de que tudo, antes do PT, estava na mais perfeita ordem.

O que talvez uma parte das pessoas da classe social historicamente favorecida pelo sistema que foi às ruas pelo continuísmo não perceba (e aqui não falo, por óbvio, daqueles que possuem inspiração fascista) é que muitos dos problemas econômicos que vislumbram são, de fato, decorrentes de mais uma crise do capitalismo em âmbito mundial, que, de todo modo, se reforça pela adoção de políticas neoliberais, acatadas pelos governos brasileiros desde 1990 (com Collor de Mello), e cujos valores, aliás, paradoxalmente, se viram presentes em muitas das reivindicações apresentadas na manifestação do último dia 15 de março.

A grande ilusão dessas pessoas é a de acreditarem que os problemas do capitalismo, que se trata, presentemente, de um modo de ser mundial, não são endêmicos dele próprio, mas decorrentes de fatores externos, como a má gestão administrativa de governos que não cuidam do “déficit” público, como se o Estado não fosse um aparelho necessário à preservação desse modelo de sociedade e como se a crise fosse evitável por práticas administrativas de um governo setorialmente idealizado.

Esse modo de subverter a realidade, que é, ademais, a mesma tática utilizada para justificar os atos de corrupção, só serve para aprofundar a crise, que deixa de ser apenas econômica, para ser também moral, no sentido da desumanização. Se ninguém agüenta, e não deve mesmo suportar, argumentos fugidios para justificar a imoralidade, como o de que “sempre foi assim neste país”, deveria arrepiar a consciência de todos a falácia midiática de que o Brasil está em crise porque o governo do PT quis transformar o Brasil em Cuba, seja lá o que se queira dizer com isso.

Do mesmo modo, as “consciências espertas”, que não se deixam enganar, deveriam prioritariamente se indignar diante das situações que já se institucionalizaram entre nós no que se refere à prática do “se dar bem” enganando o outro, que não é, como se tenta fazer acreditar, um problema da cultura nacional, mas da própria lógica da convivência humana pautada pelo dinheiro e pela posição social. Se são graves os casos de corrupção na Petrobras e quaisquer outros, também em nível estadual, não é possível desconsiderar que, de fato, estamos envoltos em um mercado cuja lógica é a exploração do trabalho, que se completa com exploração do consumidor, que não raro é o próprio trabalhador. Quem já não passou por uma experiência de consumo desastrosa, que desembocaram no ato insano de ter que falar horas ao telefone com um trabalhador terceirizado, que só emite respostas padrão, com o objetivo claro de fazer com que o consumidor desista da reclamação? Quem já não se viu com problemas de cobranças indevidas em cartões de crédito, em contas de telefone, em empréstimos bancários ou com coberturas a menor de planos de saúde? E por aí vai…fora-stf

Basta ligar a televisão, ou ler os jornais e revistas, que o batalhão de publicidades estará lá para incutir na cabeça das pessoas que felicidade “é uma calça velha azul e desbotada”, mas da marca “x”, que o mérito se mede pelo tamanho do “carrão”, mas, claro, você será mais feliz ainda se poder se dar ao luxo de deixar o carro na garagem e ir de bicicleta, afinal “isso muda o mundo” e se não mudar não é culpa do sistema porque há coisas que “não tem preço”, ou “que o dinheiro não compra”, sendo que para “todas as outras” há sempre um cartãozinho que dá um jeito.

A felicidade por meio da aquisição de coisas torna o ser humano cada vez mais desimportante. O problema de um sistema que obriga o homem a se valorizar por intermédio da aquisição de coisas está na contradição destacada por Marx de que “quanto mais objetos o trabalhador produz tanto menos pode possuir e tanto mais fica dominado pelo seu produto, o capital”[1].

De fato, a lógica econômica da convivência social não gera felicidade, promovendo, no máximo, prazeres momentâneos permeados por uma insatisfação constante, pois o que se consome deixa de existir com aquela qualidade logo que é consumido ou utilizado.

Não se atinge mesmo qualquer estágio de compreensão da condição humana pela compra de um carro, por exemplo, pois em pouco tempo o modelo do carro muda, sendo que ânsia de fazer a roda do consumo girar já tem feito com que os carros do ano se apresentem no meio do ano anterior. E o que muda? Nada. É só uma fórmula fácil para se aproveitar da fragilidade humana, ainda mais quando os seres humanos são postos em constante concorrência e não se percebem girando em uma roda da vida em que tudo fazem apenas para “adquirirem coisas que não precisam, para impressionar pessoas com as quais não se preocupam”.

Por fim, uma dica importante de Ariano Suassuna: “Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita”.

  1. As culpas do PT

Todas essas observações tornam o movimento de 15 de março completamente desprovido de sentido? Fazem com que todos os participantes do movimento sejam golpistas ou direitistas? Fazem com que os governos petistas não tenham culpa de nada, sendo, em verdade, vítima de uma trama da oposição?

As respostas a essas indagações são, necessariamente, um sonoro NÃO, pois a corrupção é um dado concreto e os casos envolvendo desvios de dinheiro público pelo ralo da Petrobras tornam legítimos tanto a indignação quanto o pleito por punições, que não pode, entretanto, como dito acima, ser um requerimento parcial e deslocado da materialidade cotidiana.

Ao PT cumpre perceber que possui muita culpa na situação atual que, inclusive, reforça as retóricas da direita, uma vez que se apresentou como um governo que moralizaria a Administração pública do país, mas que acabou reproduzindo a mesma lógica, mesmo no que se refere à concepção neoliberal que acabou influenciando sua postura com relação aos servidores públicos, no sentido de lhes negar o direito de greve, e no que tange ao recurso à terceirização. O acatamento dessa lógica, ademais, gerou acomodação frente à retração de direitos trabalhistas, ainda que o compromisso inicial do Partido fosse o da ampliação desses direitos.

O que se viu foram governos muito mais preocupados com a preservação do poder do que com a instituição de um projeto de Estado ou de um tipo específico de sociedade, tornando praxe em suas relações a mentira, as dissimulações, as pressões, os linchamentos pessoais dos “inimigos” e as represálias…

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O PT ruiu moral e ideologicamente e é por demais importante que a esquerda brasileira reconheça isso de uma vez, para que os argumentos da moralidade, que embora possam ser desprovidos de uma materialidade imanente, mas que não são de modo algum desimportantes, apropriados pela direita, não continuem quebrando a tradição histórica da esquerda de apontar as dissimulações da exploração da força de trabalho.

É importante, ademais, que o próprio PT, se em algum dia foi um partido de esquerda, tenha a honradez de sofrer sozinho as conseqüências de seus desmandos, não querendo levar consigo, em conversa de afogado, a esquerda brasileira, os movimentos sociais e as mobilizações sindicais, que, paradoxalmente, impulsionados pelas manifestações de junho de 2013, encontram-se em franca ascensão.

O Manifesto do PT, recentemente publicado, é uma tentativa desesperada de auto-salvação, que chega a se constituir um autêntico escárnio à consciência ao buscar criar a fantasia de que as manifestações de março de 2015 instauraram uma luta da direita contra os avanços sociais promovidos pelo PT, que estaria, assim, sendo atacado não pelos seus defeitos, mas pelos seus méritos. Reproduzindo uma lógica já tradicional, o PT se declara de esquerda e transforma todos que são contrários à salvaguarda do Partido em inimigos ou em membros da direita golpista.

De todo modo, o conteúdo do Manifesto pode ter o benefício de deixar o PT mais uma vez de frente com uma realidade, que poderá rapidamente confrontá-lo, na medida em que se posiciona como gerenciador de “uma plataforma de mudanças, que tenha no cerne a ampliação dos direitos dos trabalhadores, da reforma política, da democratização da mídia e da reforma tributária”, e bem se sabe que nada fez neste sentido e pouca indicação se tem de que o fará, sobretudo, no que tange à “ampliação dos direitos dos trabalhadores”.

A votação do projeto de lei n. 4.330/04, que propõe a ampliação da terceirização, que está prevista para ocorrer no Congresso Nacional no próximo dia 07 de abril, pode até ser utilizada como uma forma do PT tentar demonstrar que efetivamente pretende mudar o rumo de sua história frente aos direitos trabalhistas. Mas se barrar o PL 4.330/04 é muito importante, não é o bastante. Para uma reversão dessa história exige-se muito mais. Requer-se, no mínimo, o fim da terceirização, notadamente no setor público; a ratificação da Convenção 158 da OIT, que garante aos trabalhadores a proteção contra a dispensa arbitrária; e o respeito ao direito constitucional de greve para todas as categorias de trabalhadores, abrangendo as empregadas domésticas, angariadas com a igualdade plena de direitos.

  1. Conseqüências da manifestação

Sair pelas ruas em ato político não é, bem ao contrário do que muitos imaginam, mera diversão de final de semana. Há, certamente, consequências e estas vão bem além do fato de se alcançar, ou não, o objetivo buscado, que, no caso da manifestação de março de 2015, foi a abertura de impeachment contra a Presidenta Dilma ou forçar a sua renúncia.

Como dito, a manifestação de 15 de março foi bem além disso e representou o orgulho de explicitar valores de uma classe social específica, permitindo, ao mesmo tempo, o reconhecimento da existência da sociedade de classes, que tantos, durante tanto tempo, procuraram escamotear.

Talvez se tente, mais uma vez, negar isso, mas a prova não tardará a aparecer, pois o que se anuncia na dinâmica política instaurada é que essas manifestações serão utilizadas para fragilizar o governo e impor-lhe o sacrifício eleitoral do patrocínio de mudanças econômicas tendentes a favorecer interesses do capital, com promoção de um autêntico massacre da classe trabalhadora.

Assim, as manifestações com esse conteúdo de direita tendem a servir como instrumento para gerar maiores sacrifícios aos direitos trabalhistas, sendo que a percepção dessa situação pode acabar estimulando a reconstituição da consciência de classe por parte dos trabalhadores.

A conciliação entre o governo e o capital pode também implicar em perda de interesse da grande mídia nas manifestações, possibilitando a percepção do quando o mero argumento da moralidade é, ao mesmo tempo, frívolo, festeiro e perigoso, servindo aos mais variados propósitos, que, em geral, não se revelam.

Aos trabalhadores, integrados a uma materialidade precisa, vez que correm o sério risco de verem atingidos os seus direitos – como, aliás, já vem ocorrendo com o advento das Medidas Provisórias ns. 664 e 665 e com a possibilidade de aprovação do PL 4.330/04 – as manifestações dos autodenominados “coxinhas” constitui ao menos uma oportunidade para que percebam, com maior clareza ainda, como se articulam os interesses da classe dominante e para que reafirmem a relevância em torno da sua ação coletiva enquanto classe.

thumbAssim, como resultado dialético das manifestações de março pode ser que, na sequência e de forma antagônica, se vejam nas ruas, para reivindicações bastante concretas, em ação conjunta e de forma articulada com movimentos sociais: empregadas domésticas, faxineiros, garis, vigilantes, professores, metalúrgicos, metroviários, rodoviários, secretárias, bancários, eletricitários, portuários, servidores públicos, enfermeiras, trabalhadores rurais, e até, quem sabe, policiais…

E como o conceito de classe é muito mais político que econômico, sendo, portanto, um espaço de disputa na consciência humana, pode até ser que muitos daqueles que estão agora nas ruas, expressando apenas um sentimento “puro” de revolta contra a improbidade, e que querem, com verdade, a construção de uma sociedade melhor, quem sabe, tendo a percepção da dinâmica reacionária e falseada que envolveu as manifestações de março, percebam-se como integrantes da classe trabalhadora e se integrem à luta por direitos sociais, pela eliminação das diversas formas de opressão, o que conduz inexoravelmente, quando se parte de um pressuposto real de justiça social, à compreensão da necessidade de superação da sociedade de classes como resultado da promoção da igualdade real.

A dialética das manifestações está em curso. As palavras estão sendo ditas e registradas. Os atos estão ocorrendo. Compromissos estão se integrando a um processo histórico aberto, do qual resta apenas uma certeza: o porvir não está prescrito.

Então, vamos em frente!

São Paulo, 6 de abril de 2015.

[1]. Manuscritos Econômicos e Filosóficos, in Erich Fromm, Conceito Marxista do Homem. Tradução de Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1979, p. 91.

Terceirização, corrupção, impeachment e hipocrisia

Jorge Luiz Souto Maior(*)

Uma onda de patriotismo, moralismo e correção inunda o país da falta d’água. Não se quer mais corrupção e impunidade. E isso é ruim? Claro que não!

O mal é utilizar o argumento não para buscar um acerto geral e sim para alcançar maiores benefícios pessoais, ou seja, para alterar apenas aquilo que incomoda ao projeto pessoal, indo-se nem sempre em uma direção progressista das condições social e humana.

É assim, por exemplo, que pelo argumento da existência da corrupção alguns tentam chegar à justificativa para defender a diminuição dos impostos ou mesmo para não pagá-los. Muitas pessoas, mas muitas mesmo, que criticam a imoralidade na política sonegam impostos e aproveitam-se da imoralidade alheia para justificar a sua conduta ilegal. Como dito pelo jornalista Juca Kfouri, “Nós, brasileiros, somos capazes de sonegar meio trilhão de reais de Imposto de Renda só no ano passado. Como somos capazes de vender e comprar DVDs piratas, cuspir no chão, desrespeitar o sinal vermelho, andar pelo acostamento e, ainda por cima, votar no Collor, no Maluf, no Newtão Cardoso, na Roseana, no Marconi Perillo ou no Palocci.”[1]

Claro que, potencialmente, quem tem a obrigação de cuidar da coisa pública e se aproveita da posição que ocupa para furtar o erário comete um erro infinitamente maior do que aquele que se vale do argumento da improbidade administrativa para se ver livre de obrigações legais. Ainda assim, um erro não justifica o outro.

Além disso, na prática de apontar os erros alheios nem sempre importa a coerência no sentido de não cometer os mesmos erros ou outros equivalentes.

Mais ainda não impera o comprometimento real, propugnando-se soluções que apenas impõem sacrifícios alheios.

Vejamos.

Se a economia vai mal, os congressistas e administradores pensam em soluções que diminuem direitos dos trabalhadores, mas não pensam em diminuir os próprios salários. Aliás, bem ao contrário, na mesma época em que se retomam as falácias do “custo Brasil”, que se reforçam com a retórica da “crise” eterna, os políticos aumentam[2] os seus ganhos, sendo esta, aliás, a lógica que, necessariamente, se impôs ao Judiciário[3] para impedir que sirva como “tábua de salvação” do respeito à ordem constitucional, pautada, ainda que minimauntitledggfmente, por uma lógica republicana destinada à realização da justiça social.

Da mesma forma, muitos empresários (mais uma vez, reproduzindo o que vêm fazendo, sistematicamente, na realidade brasileira, desde a década de 50) reivindicam redução dos custos dos direitos trabalhistas, sendo que antes o faziam sob a promessa de mais contratações de trabalhadores e agora como a necessidade imperiosa para a manutenção dos empregos, mas não anunciam redução dos ganhos de diretores, não divulgam os balanços explicitando o peso dos encargos trabalhistas no orçamento e o real efeito das reduções pretendidas, não efetivam auditoria para sanar as contas, não aceitam que os trabalhadores tenham acesso às informações sobre a administração e a saúde econômica da empresa, não admitem a institucionalização jurídica da garantia de emprego contra dispensas arbitrárias, ou seja, querem “segurança jurídica” para si, mas querem manter os trabalhadores em extrema insegurança, que não é só jurídica, mas também econômica e social, e tentam, então, utilizar o seu poder de “mandar embora” o trabalhador para aí sim, estando este já com a corda no pescoço, negociar condições de trabalho.

Fato é que se existisse uma crise econômica estrutural, qualquer solução minimamente séria somente poderia ser pensada de forma também estrutural, ou seja, atingindo a todos os setores da sociedade, ou, mais precisamente, a todas as classes da sociedade. E por incidência dos princípios da isonomia e da justiça social, atendendo ao projeto constitucional da diminuição das desigualdades, o sacrifício eventualmente necessário deveria atingir em primeiro plano aqueles que historicamente se beneficiaram dos momentos de bonança e os que ostentam as melhores condições econômicas.

A reivindicação de redução dos direitos trabalhistas, vista no contexto da realidade histórica, é uma agressão aos trabalhadores, que são, efetivamente, aqueles que produzem riquezas, e é, ao mesmo tempo, uma desconsideração de que os direitos trabalhistas surgem como conquista dos trabalhadores e como forma de regulação do próprio modelo de sociedade capitalista.

Traduzindo em palavras mais diretas, é como se o capital dissesse à classe trabalhadora: “Bom, eu te explorei durante anos e com isso acumulei riquezas, enquanto você sobreviveu com limitações. Agora, quando meu lucro tende a diminuir, eu preciso te impor mais limitações, para manter o meu padrão de vida, sendo que se não for assim não terei mais interesse em continuar te explorando…”

Pois muito bem, quando o setor econômico (com o apoio de políticos) vem a público reivindicar, abertamente, a legalização da terceirização, com ampliação irrestrita, o que está dizendo é exatamente isso, contendo, ainda, a mensagem subliminar de que não quer que os trabalhadores se percebam como classe e que tenham condições concretas de se organizar para a luta sindical.

Claro, não se fala isso expressamente. O que se diz é que “a terceirização é fruto da reengenharia da produção,
necessária para a competitividade, vez que confere às empresas maior flexibilidade administrativa”, ou coisa que o valha. Tenta-se, ainda, inverter plenamente a realidade, para justificar a regulação da terceirização como forma de ampliar os direitos dos trabalhadores, garantido-lhes segurança jurídica.

Mas o que significam, de fato, essas palavras? “Flexibilidade administrativa” é o poder de contratar e descontratar mão-de-obra, sem formar vínculos pessoais e institucionais da empresa com os trabalhadores. “Maior competitividade” é reduzir custos, o que se possibilita mediante a contratação de uma empresa intermediária, de prestação de serviços, desprovida de meios de produção, à qual o capital tem ampla possibilidade de impor o valor e prazos para a execução dos serviços sem sequer considerar o mínimo que seria necessário para satisfazer os créditos trabalhistas. “Reengenharia da produção” é desvincular-se das relações coletivas com os sindicatos dos trabalhadores, fragilizados na pulverização promovida pelas subcontratações.

Que segurança jurídica se garante aos trabalhadores? Nenhuma. O trabalhador terceirizado não tem vínculos duradouros, não se socializa no ambiente de trabalho, não se vê como classe em antagonismo ao capital que o explora, até porque não o reconhece. O trabalhador terceirizado é segregado, discriminado (pelos próprios trabalhadores efetivos) e dada a debilidade econômica de seu empregador é submetido a trabalhos em condições precárias de trabalho.

Segundo números extraídos apenas das ações que tramitaram na Justiça do Trabalho, em um único ano, o de 2011, 2,8 mil trabalhadores morreram em decorrência de acidentes do trabalho, que estão, inegavelmente, relacionados a uma maior precariedade nas relações de trabalho. Aliás, em infeliz coincidência com a colocação da seleção brasileira na Copa do mundo, a precariedade das relações de trabalho conduziu o Brasil a outro quarto lugar, especificamente no que tange ao número de acidentes fatais no trabalho[4] nos diversos países do mundo. E, conforme os “dados do Dieese, o risco de um empregado terceirizado morrer em decorrência de um acidente de trabalho é cinco vezes maior do que nos demais segmentos produtivos”[5].

sebastiao-salgado-15A Petrobrás, por exemplo, tem chamado a atenção da grande mídia e gerado uma enorme repulsa de parte considerável da população em razão dos casos de corrupção em que a estatal está envolvida. Mas essa mesma grande mídia não dá destaque ao fato de que o processo de terceirização iniciado na Petrobrás na década de 90 – e ampliado nas décadas seguintes – é o que tem facilitado a promiscuidade imoral e ilegal entre o público e o privado, ao mesmo tempo em que tem submetido os    trabalhadores a condições de trabalho subumanas.

Lembre-se que no dia 11 de fevereiro de 2015, um acidente na cidade de São Mateus, ES, em navio-plataforma da empresa norueguesa BW Offshore, que presta serviços à Petrobrás, deixou nove trabalhadores mortos e 26 trabalhadores feridos e a questão da terceirização simplesmente passou ao largo de qualquer análise da grande mídia e da ira da população em geral.

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho denunciou a situação com a publicação da seguinte nota a respeito:

Terceirização

A realidade encontrada pelos Auditores-Fiscais no dia a dia da fiscalização é de que os acidentes estão ocorrendo com mais frequência entre os trabalhadores terceirizados do que com os contratados diretos das empresas, lembra Rosa Maria Campos Jorge, presidente do Sinait. “Esses acidentes estão relacionados diretamente às condições precarizadoras de trabalho impostas pela terceirização, que violam direitos, adoecem e matam trabalhadores”, denuncia.

A afirmação é reforçada pelo diretor do Sindipetro/ES, Enéias Zanelato, que declarou que a maioria dos trabalhadores a bordo do navio-plataforma FPSO Cidade de São Mateus é terceirizada. “Os empregados do quadro são coordenadores de equipe e, os outros, são terceirizados, que atuam de maneira precarizada”.

Enéias diz ainda que, atualmente, com as novas descobertas de petróleo no país, a demanda da Petrobras cresceu. “Há terceirização indiscriminada na atividade-fim, além de um plano de negócios e um processo de gestão que foca muito no aumento da produção”. A maneira que isso se reflete na empresa, segundo Zanelato, é o aumento no número de terceirizados que atualmente se encontra na proporção de cinco contratados para um concursado. “São 85 mil concursados para 300 mil terceirizados e o número deve se ampliar com a produção do pré-sal”.

No entanto, segundo Enéias, o Sindipreto/ES luta para que haja uma política de concursos públicos permanentes. “Os empregados concursados não sofrem acidentes de trabalho, o que significa que há uma sobrecarga para os terceirizados que precisa acabar, e uma forma de mudar isso é por meio de concurso público”.(https://www.sinait.org.br/?r=site/noticiaView&id=10553)

Assim, a onda moralista deveria, necessariamente, que se opor ao processo de terceirização, mas desse aspecto específico, das condições de trabalho dos terceirizados, pouco se fala, a não ser como semente para alimentar uma intenção privatizante. Para muitos moralistas pouco importa como os produtos chegam ao seu consumo ou como os lugares que freqüentam foram construídos ou são mantidos limpos ou mesmo que a sua exigência pelo menor preço constitua incentivo à precarização. Muitos segmentos empresariais, que vindicam o “impeachment” da Presidenta Dilma, aliás, de forma sistemática, não registram seus empregados, não recolhem FGTS, pagam salários “por fora”, não pagam horas extras etc. etc. etc.

Em suma, a onda moralista não tem uma racionalidade efetivamente corretiva da realidade, sendo, antes, oportunista e comprometida com uma lógica individualista e exploratória.

Isso não significa, por outro lado, uma absolvição do governo petista, pois se há uma lógica golpista na pregação do impeachment e uma ideologia entreguista na reivindicação de privatização da Petrobrás, é bem certo que quem deu força a esses movimentos foram, exatamente, os desmandos administrativos praticados na Petrobrás, além da forma sempre fugidia da realidade adotada pelos governistas no seu diálogo com a sociedade.

É interessante perceber o quanto o governo, ultimamente, tem se utilizado, em sua defesa, do argumento de que nas gestões anteriores também ocorreram desvios na Petrobrás ou que a mídia só dá destaques aos seus defeitos e não aos de políticos de outros partidos. Mas, da mesma forma, um erro não justifica o outro, muito embora erro muito maior seja o de, a propósito de “moralizar o país”, tentar destruir as bases democráticas.

Ainda assim vale insistir. O governo petista não deve ser simplesmente perdoado pelos desmandos administrativos cometidos em razão de se encontrarem erros iguais ou equivalentes em gestões passadas ou atuais, no âmbito estadual, ou mesmo em razão do risco de um golpe institucional, pois o que se preconizava era que “nunca antes na história desse país” uma administração teria sido tão honesta e tão social.

Aliás, muito menos se pode considerar que o governo petista tenha feito gestões efetivamente benéficas aos trabalhadores, até porque também neste aspecto a defesa do governo tem sido a do império do mal menor, tentando fazer imaginar o quanto teria sido pior se o governo fosse do PSDB.

Ocorre que em 12 (doze) anos de governo não se verificou nenhum empenho verdadeiro do governo para ampliar os direitos dos trabalhadores de forma concreta, Yacimiento de petroleo, Kuwait, 1991como se daria, por exemplo, com a instituição da garantia de emprego, ao menos nos termos da Convenção 158 da OIT, tendo como parâmetro o inciso I, do art. 7º. da CF.

Não se viu, ademais, uma reversão do caminho trilhado na década de 90. Com efeito, nenhuma das reformas flexbilizadoras da legislação trabalhista implementadas no período (banco de horas e terceirização, por exemplo) foram desfeitas. Bem ao contrário, a utilização da terceirização no setor público federal foi extremamente ampliada.

Avanços, é verdade, chegaram a ocorrer, mas foram revertidos, como se verificou na lei dos motoristas e na Emenda Constitucional n. 72, de 2013, sobre o trabalho das trabalhadoras domésticas, cuja regulamentação ainda não veio, mas tudo indica que venha com graves restrições, tendo o governo e os partidos políticos cedido à forte reação advinda exatamente de muitos daqueles que agora pregam justiça e ética, mas que no aspecto da ampliação dos direitos às trabalhadoras domésticas não foram capazes de superar nossa tradição cultural escravista, racista e de opressão de gênero, a qual, inclusive, se verificou de forma explícita nas recentes ofensas pessoais feitas à Presidenta Dilma.

No percurso histórico dos últimos anos não se deve esquecer da Lei n. 11.101, da recuperação judicial, que foi um dos maiores ataques já desferidos contra os direitos dos trabalhadores, tendo retirado do crédito trabalhista (superior a 150 salários mínimos) o caráter privilegiado com relação a outros créditos, buscado eliminar a sucessão trabalhista e ter servido até hoje como forma de institucionalização do “calote” trabalhista; do advento, em março de 2007, do Projeto de Lei Complementar (PLC n. 7.272/05), que chegou a ser aprovado no Congresso Nacional, que criava a denominada “Super Receita” e trazia no seu bojo a malfadada Emenda aditiva, de autoria do Senador Ney Suassuna, apelidada de Emenda 3, que retirava o poder de fiscalização dos fiscais do trabalho; do fato de que, em junho de 2011, o PL 4.330/04, de autoria do Deputado Federal e empresário, Sandro Mabel, que visa ampliar, sem qualquer limite, a terceirização, e que estava paralisado no Congresso desde 2004, quando foi apresentado, voltou a tramitar, impulsionado pelo substitutivo do Deputado Roberto Santiago (PV-SP); do anteprojeto de lei gestado no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, filiado à CUT, propondo a institucionalização de um Acordo Coletivo Especial (ACE), que revigorava a tentativa do governo de Fernando Henrique Cardoso de implementar o negociado sobre o legislado, favorecendo, no jogo livre das forças, em uma conjunta de desemprego estrutural, aos interesses empresariais e que, em meados de 2012, foi enviado ao governo para que fosse apresentado pelo Executivo ao Congresso Nacional; do Decreto n. 8.243, também patrocinado pelo governo federal, um projeto de lei que visa a criação de um Sistema Único do Trabalho (SUT), pelo qual, de forma bastante sutil, retoma a ideia embutida na Emenda 3, de negar o caráter de indisponibilidade da legislação trabalhista.

Recorde-se, ainda, que após a reeleição de 2014, alcançada sob a promessa de preservação dos direitos trabalhistas, o governo promoveu uma reforma ministerial de índole assumidamente neoliberal, pela qual conduziu Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Armando Monteiro Neto, respectivamente, aos Ministérios da Fazenda, do Planejamento e do Desenvolvimento, sendo que o último nome referido presidiu a CNI (Confederação Nacional da Indústria) de 2002 a 2010 e disse em seu discurso inaugural na cadeira que: “O desafio central é promover a competitividade. O que significa reduzir custos sistêmicos e elevar a produtividade. A agenda da competitividade envolve várias áreas dentro do governo e demanda intensa articulação e coordenação. É papel primordial do Ministério do Desenvolvimento realizar essa tarefa. E colocar o tema da competitividade no centro da agenda política do país.”

Destaque-se, ainda, a nomeação pela Presidenta Dilma da Senadora Kátia Abreu, que preside a CNA (Confederação Nacional da Agricultura), como Ministra da Agricultura.

Dentro desse contexto advieram, no final de dezembro de 2014, as MPs ns. 664 e 665, que restringiram o acesso dos trabalhadores a direitos como seguro-desemprego, auxílio-reclusão e pensão por morte, além de conferirem aos empregadores o controle total sobre declaração da saúde, ou não, dos trabalhadores para efeito da continuidade da prestação de serviços.

Não é possível, por fim, deixar de debitar nas contas do governo a violenta repressão promovida nas últimas greves dos servidores federais e a forma opressora como agiu, em conjunto com as Secretarias de Segurança dos Estados, geridos por Partidos diversos, com relação às manifestações contra Copa, tendo incentivado, inclusive, a adoção de uma Lei Antiterrorismo (PL 499/13), que reproduzia conceitos da Lei de Segurança Nacional, típicos da época da ditadura, atentando, pois, contra a lógica democrática, tudo para abafar as manifestações, as quais se opunham à realização da Copa no Brasil ou que serviam como instrução para reivindicação de direitos sociais e melhorias nas condições de vida da população.

Não há, portanto, muito como defender o governo federal a partir do argumento de que tenha promovido uma defesa incondicional dos interesses da classe trabalhadora e que essa postura seja a origem da reação da direita, que estaria, assim, expressando um ódio de classe, da classe rica, frente aos benefícios concedidos pelo governo federal à classe trabalhadora.

De todo modo, tem-se pela frente a grande oportunidade de efetivar uma prova dos nove a respeito de tudo isso, vez que a reivindicação da ampliação da terceirização está nas pautas política e econômica e a classe trabalhadora, apoiada por representantes de peso do segmento jurídico trabalhista, já manifestou sua contrariedade por intermédio de uma carta enviada diretamente à Presidenta Dilma[6], sendo certo que o ideal mesmo para a defesa concreta da dignidade dos trabalhadores é o fim da terceirização.
kuwait2É o momento, pois, do governo, como diz o ativista Guilherme Boulos, se fazer defensável, ao menos no aspecto do seu alinhamento com a causa dos trabalhadores, promovendo a ratificação da Convenção 158, da OIT, assumindo a rejeição ao PL 4.330/04, assegurando o direito de greve e eliminando a terceirização, a começar por aquela que, inconstitucionalmente e de forma imoral, se pratica no âmbito do setor público.

De todo modo, culpar o governo é cômodo. Não compete à classe trabalhadora assistir a tudo isso como mera espectadora, cumprindo-lhe retomar o papel de protagonista da história.

A classe empresarial, aproveitando-se da fragilidade da resistência teórica e prática da esquerda, que foi sequestrada e mantida sob custódia no argumento de que não se pode desestabilizar o governo petista para não fortalecer a direita, tem avançado de forma expressa e firme sobre os direitos da classe trabalhadora, e a resistência que se vê por parte desta é bastante tímida, acuada, feita nos bastidores, com pleito limitado à manutenção da terceirização como está. Ou seja, no assunto específico da terceirização, os trabalhadores não estão nas ruas, efetivando uma ação política real, acostumada que foi, nos últimos anos, a fazer política de tratativas parlamentares e este talvez seja o maior legado negativo das gestões petistas para a classe trabalhadora.

Claro, isso está mudando bastante nos últimos anos, sobretudo após o impulso das manifestações de junho de 2013. Destaquem-se, em 2014, as greves dos garis no Rio de Janeiro, dos rodoviários em São Paulo e em Porto Alegre, dos metroviários em São Paulo, dos professores da rede pública em São Paulo, dos servidores da USP, dos bancários e dos servidores federais (no IBGE, no Judiciário Federal); e, já em 2015, dos trabalhadores da Volks e da GM e dos professores no Estado do Paraná.

O cenário, portanto, está montado, exigindo-se que as peças se encaixem nos devidos lugares de forma clara e verdadeira: que quem for moralista, que o seja por completo; que quem defender o sacrifício para solucionar a crise, que comece por si; que se o sacrifício for necessário, que atinja primeiro a quem mais tem se beneficiado historicamente desse modelo de sociedade; que se o governo quer se legitimar pelo argumento de se constituir um defensor dos interesses dos pobres e da classe trabalhadora que passe, então, a agir concretamente neste sentido; que se alguém que se reivindique de esquerda, que tenha a independência e o compromisso necessários para ver a realidade com a visão de mundo da classe trabalhadora; que as mortes de trabalhadores não restem impunes; que o projeto constitucional da justiça social, da proteção da dignidade humana, da produção real da igualdade, da eliminação de todas as formas de discriminação, do respeito aos Direitos Humanos, da função social da propriedade, do valor social do trabalho, do valor social da livre iniciativa e da melhoria da condição social dos trabalhadores seja efetivamente gerido pelo Estado, sendo essencial para tanto a eliminação da corrupção, dos favoritismos e da visualização de dividendos políticos mesquinhos e imediatos, e esteja integrado, de forma concreta, ao compromisso moral de todos, gerando a recriminação generalizada da sonegação…

Um marxista não acreditaria na eficácia desse projeto, denunciando esses preceitos jurídicos como meras estruturas necessárias às trocas de mercadorias, às quais se inseriria, inclusive, a força de trabalho, o que eliminaria por completo a possibilidade de elevação da condição social e econômica do trabalhador ao nível de uma igualdade real na sociedade capitalista.

A exemplo das questões da corrupção e do impeachment, o que se fará e mesmo o que se dirá a respeito da terceirização, posta em pauta, constituirá a resposta para todas as questões afloradas pela situação política vivenciada no país, que nenhuma hipocrisia mais dará conta de camuflar!

São Paulo, 10 de março de 2015.

Profissão juiz

Por Jorge Luiz Souto Maior

Nas últimas duas manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo (uma que foi da Paulista à Prefeitura, e outra que ocorreu no bairro do Tatuapé), muitos fatos me chamaram a atenção, mas alguns, particularmente, me atingiram mais de perto.

No primeiro deles, algumas pessoas se chegaram a mim, quando o ato estava se arrumando para iniciar a caminhada, e disseram: “vamos ficar perto de você, pois você é juiz e se a polícia vier nos bater você nos protege!” No segundo, o interlocutor foi direto: “Se me prenderem, você me solta?” E, finalmente, o terceiro, indagou o que eu achava que ia acontecer durante o percurso, já que eu, sendo juiz, teria conhecimento de como a polícia agiria…

Essas falas refletem bastante o sentimento que impera entre os manifestantes, que é o de medo da polícia, considerando que ela está lá, de fato, pronta para atacá-los. Na visão dos manifestantes, a polícia fica apenas esperando uma oportunidade qualquer para agredi-los, quando não está em concreto preparando a situação para tanto. Mas não é bem disso que pretendo falar…

De fato, as falas referidas conferem-me a oportunidade para um importante esclarecimento: juiz é apenas o nome que se dá ao profissional que exerce o poder de dizer o direito (e fazer aplicá-lo), dentro dos limites institucionais de sua atuação. Bem verdade que o exercício do poder estatal e a garantia da independência funcional são características próprias da profissão do juiz, mas elas se limitam ao ato da prestação jurisdicional, dentro da lógica de prestação de serviços à sociedade (e de forma mais ampliada à humanidade, para não se submeter às influências de fatores econômicos e políticos locais), que se concretiza na atuação processual.

O poder e as garantias conferidas ao juiz não são pessoais, mas institucionais, e, portanto, fora da atuação profissional, o juiz não as detém. Aliás, não sendo pessoais, não conferem ao juiz uma cidadania diversa das demais pessoas, mesmo quando está no exercício da profissão. O juiz, portanto, é um cidadão como outro qualquer, dentro e fora da jurisdição, ainda que alguns juízes imaginem que as garantias da jurisdição lhe confiram alguma superioridade, que lhe integra como um atributo pessoal, considerando, inclusive, que as possam exercer nas relações sociais, para, por exemplo, não pegarem fila, não pagarem multa de trânsito, não perderem o vôo etc.

Participando de uma manifestação, jogando futebol, sentado à mesa de um bar, no trânsito, utilizando-se de transporte público, no cinema, na fila do banco, torcendo para o Corinthians (o que “é de lei”), o juiz não é juiz, sendo correto identificá-lo se não pelo nome ao menos pela forma generalizante de manifestante, motorista, passageiro, torcedor, jogador (craque, esforçado ou perna de pau) etc., jamais como juiz.

Assim, o juiz, participando de uma manifestação, fora de sua jurisdição, não pode “soltar” manifestante ou intervir na atuação das instituições que, na situação, detenham, de fato e de direito, autoridade. Certo que como qualquer cidadão, o juiz, naquele instante da vida civil, um manifestante, pode (e deve) denunciar os abusos das autoridades, mas no geral, na emergência de eventual tumulto gerado em uma manifestação, será mais humano que tente se proteger, para não ser pisoteado ou atingido por balas de borracha.

Durante quase 22 anos de magistratura sempre separei de forma bastante nítida o cidadão que exerce a profissão de juiz, atuando no processo, do cidadão que participa das demais relações sociais. Tenho, portanto, a plena convicção de que devo me submeter às situações que atingem a todas as pessoas nas mesmas circunstâncias, enfrentando fila, esperando no trânsito, andando de ônibus (ou metrô), jogando bola etc. Abomino, por conseguinte, qualquer prática de “carteirada” ainda que se a entenda por uma “boa causa”, até porque essa postura não representa o efeito de mera compreensão pessoal, sendo, isto sim, uma imposição da ordem jurídica.

O outro lado dessa moeda é que é exatamente essa separação que me permite, como cidadão, participar de atos da vida social, sobretudo daqueles que me auxiliem a perceber a realidade a partir do olhar do oprimido, o que, ademais, se reflete em benefício da atuação profissional, notadamente para um juiz que lida com causas sociais, em especial, trabalhistas. Fato é que se o juiz não pode atuar como juiz fora do processo, isto é, na realidade social, por consequência não é possível lhe negar a cidadania para a prática de atos que se permitam a todos os demais cidadãos.

Em conclusão, o que espero dos valorosos companheiros manifestantes e demais lutadores sociais é que me vejam como um igual e como alguém que, acreditando na causa, estará sempre disposto a engrossar a multidão, para vibrar com as vitórias e sofrer junto nas derrotas.

São Paulo, 23 de janeiro de 2015.

Acabou!

Jorge Luiz Souto Maior

A manifestação de hoje (quarta-feira), no bairro do Tatuapé, em São Paulo, organizada pelo MPL e contando com a participação de diversos coletivos bastante atuantes, chegou ao final sem qualquer incidente. Foi muito bonita a empolgação dos participantes ao final do ato, que se transformou em uma grande festa: as pessoas, felizes e aliviadas, se abraçavam e comemoravam o feito, renovando o ânimo para a luta.

Esse fato, ademais, demonstra, claramente, sobretudo para quem se deixa induzir por parte da grande mídia, que aos manifestantes o que interessa verdadeiramente é concluir o ato, para tentar conseguir alcançar o seu objetivo político, até porque o ato em si já causa bastante transtorno, sendo que quanto mais for apto a aderir pessoas, com as mesmas convicções, melhor. Assim, os tumultos não interessam aos manifestantes, sendo provocados, portanto, por “infiltrados”. No ato de hoje bem que alguns desses “infiltrados”, que são facilmente percebidos entre os participantes, até que tentaram começar alguns tumultos, mas a geografia dos locais por onde passou a manifestação não era propícia à atuação desses personagens.

Foi bastante impressionante no ato de hoje também o apoio transmitido aos manifestantes pelos moradores do bairro. Muitas pessoas nas sacadas, nas janelas e nas portarias aplaudiam e incentivavam o ato – ao menos o assistiam sem expressar crítica. Interessante, ainda, que esse apoio veio também de diversos trabalhadores, que atuavam em lojas ou restaurantes.

Essa situação constitui forte demonstração de que o espírito das manifestações de junho de 2013 não está enterrado. Para quem apostou que junho nunca mais voltaria talvez esteja chegando o momento de rever suas previsões.

Por fim, é essencial destacar que o ato de hoje, que contou com mais de 5.000 pessoas, extrapolando as expectativas, não foi, ao contrário de tantos outros do próprio junho/13, desprovido de convicções. Os manifestantes foram firmes na expressão de suas convicções que carregavam forte conteúdo solidário e consistente consciência social, voltados não apenas à redução (e até eliminação) da tarifa de ônibus, mas à defesa de várias outras pautas extremamente relevantes para a classe trabalhadora, como, por exemplo, a readmissão dos ferroviários, que foram demitidos porque lutaram, e a preservação dos empregos dos cobradores do ônibus, ameaçados de demissão.

Se alguém tem desconfiança quanto ao futuro do Brasil é por que não conhece esses 5.000 jovens, lutadores, inteligentes, conscientes e solidários, que são, ademais, apenas uma pequena mostra de tantos outros milhares de jovens que carregam os mesmos adjetivos e que existem por aí e que talvez se apresentem nos próximos atos, até que a tarifa, enfim, seja eliminada!

Foi uma tarde/noite muito exitosa, ficando a expectativa de que, como foi dito ao final, sexta-feita seja ainda maior.

São Paulo, 20 de janeiro de 2015.

A quem interessa o silêncio? – de Charlie às reivindicações trabalhistas

Jorge Luiz Souto Maior(*)

 1.

Um conto atribuído a Malba Tahan[1] relata a história de dois amigos que ficaram perdidos na floresta e foram pegos por uma tribo de índios, que, como pena, colocaram corcundas em suas costas. No ritual preparatório para a consolidação da corcunda os índios cantavam: “segunda, terça e quarta; segunda, terça e quarta” e a letra assim se repetia incessantemente. Um dos prisioneiros, então, sem querer, começou a cantarolar baixinho, “segunda, terça e quarta; segunda, terça e quarta…”, ao que foi interrompido pelo chefe da tribo, que perguntou: “quem é que está cantando assim tão bem?”. Os índios responderam: “É ele, é ele, o prisioneiro da cela 1”. O chefe então sentenciou: “Tirem a corcunda dele!” E os índios retomaram o ritual, voltando a cantar… O outro prisioneiro, vendo o que se passou, não teve dúvida: começou a cantar e em voz bastante alta, para não ter dúvida de que fosse ouvido: “segunda, terça e quarta; segunda, terça e quarta…”, mas se empolgou e também querendo agradar ainda mais, complementou: “quinta, sexta, sábado e domingo também!!!!”. O chefe novamente mandou parar a música e perguntou: “Quem é que está cantando assim… tão mal?” “É ele, é ele, o outro prisioneiro”, respondem os índios. A sentença é implacável: “Pois peguem a corcunda do outro e coloquem nas costas dele!!!”

Na mesma linha do conto acima, relata-se que certa vez alguns amigos em um bar ficaram maravilhados com o tira-gosto que lhes fora servido e então chamaram o garçom e pediram a ele que transmitisse ao cozinheiro efusivos elogios, encomendando nova porção. Quando esta veio, o garçom, todo animado, disse que o cozinheiro havia “caprichado”. Ocorre que para agradar dobrou a quantidade do tempero, mas na avaliação dos clientes o que era bom ficou horrível.

A mensagem que esses contos querem passar é a de que há um ponto de equilíbrio, não codificado, a se respeitar. Expressam ainda que aumentar a dose da fórmula que conduziu ao sucesso não significa, necessariamente, obter um sucesso ainda maior, podendo, bem ao contrário, gerar o efeito inverso e destruir a própria essência da conquista, como se, neste instante do texto, percebendo que o leitor está gostando das analogias eu ficasse relatando novos e novos exemplos para ilustrar a mesma ideia…

A nossa liberdade de atuação e de expressão, portanto, encontra limites na perspectiva das correlações sociais e quem define esses limites não é aquele que exerce a liberdade de expressão, mas os que são alvo dela, no sentido do acolhimento ou rejeição, difusão ou desprezo, à ideia.

Esses limites, assim, não devem ser fixados previamente e ao mesmo tempo são flexíveis considerando a dinâmica dialética do processo histórico. Ora, a liberdade de expressão, historicamente, foi uma conquista fundamental da humanidade, pois enquanto não se a concebia como um direito grandes personalidades tiveram fins trágicos, como Giordano Bruno, na época da inquisição.

Assim, é essencial defender a liberdade de expressão, coibindo qualquer tipo de censura, até porque para censurar seria preciso criar arbítrios para separar o “certo” do “errado”, o “bem” do “mal”, e isso nos remeteria ao mundo medieval, ao obscurantismo e aos regimes ditatoriais. Já disse[2] e repito, não tenho medo do grito; tenho medo do silêncio. Não tenho medo da discordância; tenho medo da mordaça e da ignorância.

2.

O problema de se tentar criar parâmetros para impedir que algumas coisas sejam ditas é o de obstar o avanço do conhecimento, que parte da contestação aos padrões do conhecimento posto, admitidos como absolutos.

Além disso, essa preocupação com a delimitação é muito mais uma desconfiança da capacidade intelectiva e cultural do receptor da mensagem do que uma forma de estabelecer padrões aceitáveis da convivência humana. Ou bem acreditamos que os seres humanos são capazes de discernir, distinguindo as manifestações que contribuem para a sua evolução e as que se prestam à sua destruição, ou não temos porque ficar criando lógicas de raciocínio.

Importante deixar claro que repudio, de forma veemente, manifestações de cunho racista, machista, elitista, pedófilo, discriminatório, homofóbico, antissemita, islamofóbico, além de outras, carregadas de intolerância de qualquer natureza, que expressam agressões às religiões ou que instigam a violência contra seres humanos, nem acho qualquer graça em piadas com esses conteúdos, sobretudo quando direcionadas a grupos fragilizados com o propósito, não revelado, de favorecer à sua opressão.

Compreendo, ainda, que a ordem jurídica protetiva dos Direitos Humanos consagra valores que representam um avanço na evolução da racionalidade humana, sendo vedado, juridicamente, o retrocesso.

Mas acho também que a punição jurídica não é suficiente nem eficiente, além de ser bastante perigosa a limitação das análises sobre os valores relevantes à evolução da humanidade aos padrões da ordem jurídica posta, vez que esta representa, em dado momento histórico, a reprodução da compreensão da classe dominante e que serve a esta como instrumento de poder para se preservar enquanto tal. A desconsideração da existência da sociedade de classes e a eliminação da legitimidade da luta de classes, ademais, criam a máscara do bem comum, punindo as aberrações para forjar a abstração de uma sociedade justa, enquanto se mantém, na dinâmica concreta, violenta, opressiva, seletiva, machista e racista.

Assim, entre defender cegamente limites para a liberdade de expressão, adotando-se os parâmetros da ordem jurídica liberal, e defender a plenitude da liberdade de expressão, mesmo não concordando com o conteúdo da fala, melhor pender para esta última, para não correr o risco de aprofundar as ilusões do alcance corretivo do direito burguês, para não reduzir as potencialidades do raciocínio crítico e para não eliminar as possibilidades de superação dos desajustes sociais e de minimização das fragilidades humanas.

Vale lembrar que em nome da preservação da ordem jurídica, uma decisão, ainda vigente, da Justiça Federal do Maranhão, determinou, em agosto de 2013, o sobrestamento das atividades do Centro de Difusão do Comunismo da Universidade Federal de Ouro Preto dentre outros motivos porque o curso ministrado seria antidemocrático por sustentar que o comunismo é o “único modelo capaz de explicar e positivamente transformar a realidade”, sendo de se ressaltar que tal decisão, de um juiz a partir da pretensão de um advogado, ou seja, da comunhão do pensamento de duas pessoas, foi aplaudida por alguns veículos jornalísticos (que se dizem “Charlie”) e por tantos outros foi solenemente ignorada[3].

É relevante perceber, também, que as punições aos valores jurídicos consagrados não são condicionantes do pensamento. Punir a fala não corresponde a alterar o modo de pensar. E, como dito, ao simplesmente punir a fala – o que pode ter propósitos diversos, que não se expressam – mantém-se inalterado o pensamento. Assim, se pautamos toda nossa confiança na humanidade na força coercitiva dos limites juridicamente impostos, deixamos de formular compreensões a respeito dos valores consagrados, sendo, de certo modo, uma forma de desacreditar na humanidade. Ademais, o estágio evoluído da humanidade pressupõe a inexistência do Direito, da desnecessidade de coerções externas, sendo que para chegarmos a isso é preciso enfrentar o desafio da contraposição de ideias, incentivando diálogos abertos, baseados na franqueza, na sinceridade, na confiança e na ética, sem desprezar, é claro, o necessário aprofundamento teórico, o que não elimina, vale dizer, a cultura popular, muitas vezes mais sábia que muitos supostos intelectuais. Fato é que em toda relação pessoal que se estabiliza por intermédio do controle coercitivo predominam a desconfiança e o artificialismo, sobressaindo a própria fragilidade da dominação, até que um dia, como diria Chico Buarque em passagem célebre, o dominado diz: “te perdoo por te trair”[4].

Na última manifestação organizada pelo MPL, contra o aumento da tarifa de ônibus, ocorrida em São Paulo no dia 16 de janeiro, o forte aparato policial reprimiu duramente, todo o tempo, a manifestação, e mais ainda quando “decidiu” que o ato deveria terminar, arremessando bombas sobre a multidão e saindo, literalmente, à caça de manifestantes que se dispersaram pelas ruas. Mas ninguém saiu dali convencido de que a Polícia detinha a razão, de que o direito de manifestação não deva ser exercido ou de que lutar por uma sociedade mais justa seja crime[5]. Muito pelo contrário, a repressão apenas aumentou a convicção em torno da necessidade de continuar gritando.

3.

Nesse assunto do semanário francês, “Charlie Hebdo”, parece-me, portanto, que não se pode tentar, minimamente que seja, justificar o morticínio com argumentos de que os cartunistas excederam os limites da liberdade de expressão, estando fora da análise se eram, ou não, de bom gosto as charges que faziam. Ora, se para se contrapor a uma ideia, que, segundo o receptor, lhe tenha gerado uma ofensa moral, o considerado ofendido se vê no direito de matar o ofensor e justificamos o ato, fazendo críticas à postura de quem expôs a ideia, extingue-se a possibilidade do choque de ideais e decreta-se o fim da produção do conhecimento.

Claro, existe bastante hipocrisia neste assunto, já que muitos defensores da liberdade de expressão não a aceitam quando a ideia exposta contraria seus valores. Do ponto de vista do suposto choque de civilizações, o que se tem visto, nos meios de comunicação que temos acesso, é uma tendência a uma espécie de naturalização da ridicularização do mundo mulçumano ao mesmo tempo em que se caminha para uma institucionalização de autênticos tabus da tão preconizada racionalidade ocidental. De todo modo, não é uma disputa entre o bem e o mal, não se exigindo, pois, um posicionamento em favor de uma ou de outra cultura, sendo essencial, isto sim, reconhecer a existência das imperfeições que carregam, afinal o conhecimento deve suplantar todo tipo de fundamentalismo.

Assim, a explicitação da hipocrisia liberal não é argumento para negar a relevância da liberdade de expressão até porque não é ela a causa dos problemas identificados, constituindo, bem ao contrário, o instrumento para sua denúncia e contestação. Em outras palavras, é apenas o direito à liberdade de expressão que pode afrontar a hipocrisia e apontar as contradições, buscando superá-las.

4.

Na realidade brasileira, por exemplo, o conhecimento tem sido negado a várias gerações, estabelecendo-se uma censura velada do que pode e do que não pode ser dito nos meios de comunicação, nas escolas, nos livros, nas faculdades, a tal ponto que não conhecemos a nossa própria história e nem mesmo as diversas “comissões da verdade” criadas conseguiram chegar a revelações completas. Temos, portanto, um grande déficit no exercício do direito à liberdade de expressão, sobretudo se considerarmos a realidade dos segmentos econômica e politicamente menos favorecidos da sociedade de classes em que vivemos. A deficiência da formação intelectiva é impeditiva da formulação de sensos críticos próprios, restringindo a liberdade de expressão a uma fórmula vazia de reprodução dos valores dominantes, que são, midiática, ditatorial e incessantemente inculcados.

Além do aspecto da formação do conhecimento, a efetividade do direito à liberdade de expressão exige o acesso democrático aos instrumentos de difusão das ideias. A dominação antidemocrática dos meios de comunicação em massa constitui obstáculo à efetividade da plena liberdade de expressão em dada realidade social.

Os meios de comunicação em massa, empurrando a fórceps nas mentes de todos a racionalidade da classe dominante, utilizam-se de figuras abstratas, quase mitológicas, como a da “sociedade civil”, desprezando a configuração da sociedade de classes e as condicionantes econômicas que geram grandes diversidades nas experiências humanas e as delimitam. É assim, por exemplo, que a grande mídia, para minar os movimentos grevistas, sempre põe em destaque os prejuízos gerados pela greve à “sociedade”, como se a tal sociedade fosse um todo indivisível e um adversário dos trabalhadores grevistas, que neste instante deixam de se integrar à “sociedade”. Esquece-se, ademais, que a “sociedade prejudicada” é composta de vários outros integrantes da classe trabalhadora, que, mais dia, menos dia, estarão em greve e se verão submetidos ao mesmo massacre midiático.

O que a limitação à liberdade de expressão, ou a sua produção restrita à perspectiva da classe dominante, tenta fazer é evitar a produção de um conhecimento vital à consciência de classe, ao mesmo tempo em que as deficiências estruturais do modelo de sociedade capitalista servem para negar aos trabalhadores as possibilidades concretas, dos pontos de vistas político, jurídico e econômico, de difundirem, com pretensões massificadoras, a sua visão de mundo, os seus interesses e a legitimidade de sua luta, sendo certo que não se deixa de utilizar, caso necessário, a força institucional repressiva, trazendo-se à tona, inclusive, a alegada prevalência jurídica dos valores liberais.

É assim, por exemplo, que as greves e as manifestações populares são violentamente reprimidas com base na proteção dos valores liberais clássicos, como o “direito de ir e vir” e o “sagrado” direito de propriedade, mesmo que esta esteja em desacordo com a ordem jurídica posta, que lhe garante legitimidade apenas quando cumpra uma função social.

As greves são a essência da liberdade de expressão dos trabalhadores, pois são, ao mesmo tempo, consciência e meio de difusão. Reprimir a greve, tratando-a como caso de polícia, é negar vigência à liberdade de expressão, sendo a defesa do direito de “ir e vir” apenas um subterfúgio para se atingir esse objetivo, até porque o tal direito de ir e vir também atinge os grevistas.

5.

Essas formulações exemplificativas, acima expostas, reforçam a afirmação de que é preciso defender a liberdade de expressão para superar a censura e permitir a produção do conhecimento, admitindo como conseqüência inevitável, a contraposição no campo das ideias.

Defender de forma coerente a liberdade de manifestação requer uma demanda de que ela se exerça, concreta e democraticamente, por todas as pessoas, independente da posição social, sendo que a constatação da inviabilidade real de seu exercício pela classe trabalhadora constitui a demonstração clara das falácias dos valores liberais em um modelo de produção capitalista.

Portanto, não me parece que seja função do pensamento de esquerda apontar as contradições da racionalidade burguesa para se contrapor à liberdade de expressão. Muito menos lhe cumpre minimizar a importância das manifestações populares que têm ocorrido em defesa desse valor, que não é essencialmente burguês, mas uma conquista da humanidade como um todo, ainda que não esteja servindo, concretamente, a todas as classes sociais.

Quando se diz que é indigna essa defesa porque não se a viu com a mesma intensidade com relação a tantas outras atrocidades que ocorrem mundo afora acaba-se reproduzindo uma racionalidade reacionária, que conduz a humanidade a uma imobilidade e ao conformismo, negando a própria força das iniciativas populares.

Lembre-se que a mesma lógica argumentativa, de índole reacionária, é costumeiramente produzida quando algumas pessoas lutam por pautas específicas, como, no caso brasileiro, a moradia e a tarifa-zero, ou quando se solidarizam com aquelas que lutam, dizendo-se, por exemplo, que: “esses ‘invasores’ de terras são espertos e querem passar à frente de quem espera na fila para obter uma moradia popular”; “o que adianta lutar pela redução de apenas 0,20 na tarifa?”; “onde estavam essas pessoas quando tantas outras foram presas e mortas?”; “por que não se solidarizaram com os mortos dos regimes ditatoriais de esquerda?” E por aí vai… Ora, toda luta por direitos, a luta do dia-a-dia, é importante e a tentativa básica de eliminá-la é preconizar que a ação só vale se for pela solução completa dos problemas sociais ou que quem nunca lutou por nada não pode, agora, lutar.

Não foi outra, a propósito, a lógica utilizada para atacar a todos que se expressaram contrários à persistência da pena de morte na Indonésia, que gerou o fuzilamento do brasileiro, Márcio Archer, no último domingo, dia 18 de janeiro. Um ataque que, aliás, foi direcionado sobretudo ao governo brasileiro, que se manifestou, publicamente, contra o ato, sob o argumento de seria indigna a defesa de Márcio Archer pelo governo enquanto milhares de brasileiros morrem, cotidianamente, no Brasil, vítimas da violência urbana. Só que assim restava justificada a pena de morte, isto quando era defendida abertamente.

O mundo tem vários obscurantismos e injustiças sociais, envoltos em inúmeras contradições, que somente serão desafiadas e superadas com o conhecimento cujo desenvolvimento requer o exercício pleno do direito à liberdade de expressão.

6.

Vale um destaque final ao humorismo, que deve ser mesmo entendido como uma reprodução caricata da realidade social. Ainda que seja bastante tênue o limite entre a genialidade e a mediocridade, ou mesmo a bestialidade, nessa forma de comunicação, sua importância não pode ser negada tanto para o avanço da compreensão humana, pois a institucionalização do raciocínio tende a uma rigidez tal que muitas vezes faz bem que seja exposta ao ridículo ou ao seu lado tragicômico, quanto para, simplesmente, aliviar um pouco o espírito[6]. Nesse tema da liberdade de expressão, por exemplo, é impagável a cena em que Bart Simpson[7], enquanto sobrepõe, nas imagens de um livro, um diálogo imaginário[8] entre Abraham Lincoln e George Washington, diz: “obrigado pela liberdade de expressão: otários!”.

Fico, aliás, imaginando como ficaria a cena de uma charge na qual se indagasse à Mafalda o que ela pensa de tudo isso… E ela, deitada sobre uma cama na qual havia espalhado recortes de todos os textos que leu a respeito, depois de pensar um pouco e fazendo o gesto típico dos hippies dois dedos da mão esticados em V, indicativos de “paz e amor”, responder: “Eu? Eu sou Charlie… e marxista, graças a Allah!”

São Paulo, 20 de janeiro de 2015.


(*) Professor Associado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, USP.

[1]. Júlio César de Mello e Silva, escritor e matemático brasileiro, famoso pela difusão de fábulas e lendas passadas no Oriente.

[3]. Negando a judicialização do embate de ideais, destaque-se o importante Manifesto em Defesa da Liberdade de Expressão, publicado no Brasil em 2013, que foi firmado inicialmente, por associações de docentes e discentes, entidades sindicais e 455 personalidades, dentre parlamentares, professores, estudantes, juristas, magistrados, sindicalistas e profissionais de diversas áreas, e corroborado por mais de 3.000 assinaturas (http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=rantunes).

[4]. Música, Mil perdões, 1983.

[5]. Embora parte da grande mídia, no mesmo dia e no dia seguinte, tenha cumprido o que considera ser o seu papel de tentar convencer a “sociedade” de que os manifestantes não fazem parte da “sociedade”, que são vândalos e baderneiros, que não possuem uma consciência e que se equipararam à Polícia no poderio bélico e na prática de atos de violência, desvirtuando completamente os fatos, tudo para aniquilar o direito da manifestação popular.

[6].  E por isso que a graça quando se presta à agressão, ainda mais de forma seletiva, perde a graça e a sua função.

[7]. Os Simpsons, temporada 24, episódio 10.

[8]. Lincoln: “NICE WIG, GRANDMA”; Washington: “AT LEAST A CAN TAKE A BULLET”.