Um justo lugar na História

marielle-franco-vereadora

Por Mariana Benevides da Costa

Para o Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital, porque elucida e inspira.

Para meu pai, in memoriam, e para minha mãe, porque puseram livros em minhas mãos;

Para Marina e Marília, nossas menininhas negras, em cujas mãos, nós pomos livros.

 

Antes do capitalismo,

O mercantilismo.

E, como cria deste, o racismo.

Da pele, diferenciação de cor,

Para justificar a pungente dor:

Da escravidão,

Da coisificação,

Da inferiorização,

De forçada servidão,

De inevitável solidão,

De falsa e oprimida mansidão.

Com meus filhos e companheiros,

Formamos, juntos, ao longo da História,

Um exército de guerreiros.

Somos gente e, não, mercadoria.

Sentimos, lutamos, vivemos

Caímos e levantamos, com muita sabedoria.

Mas, nada disso é contado,

Porque, de negras e negros, se omite a trajetória

Para senhores e patrões,

Nosso lugar não é na História.

Cabe-nos antes o fundo das casas –

O lugar invisível, a cozinha, a senzala,

Onde, cruel, o açoite nos cala;

Onde eles acham

Que não temos nenhum lugar de fala.

Mas, do Reinado, conquistamos a abolição

E, na República,

Ainda renhimos,

Com a herança de uma tradição:

Tradição escravocrata,

Tradição sociopata,

Tradição psicopata.

Pois, no Brasil, ainda hoje,

Mulher negra não pode ser doutora.

Por serem estudadas e conscientes,

Humilham-se Advogada e Mestra Professora,

Vai-se além e se assassina

Uma preta Vereadora.

Nossa, quanta negrinha insolente!

Elas, até, pensam que viraram gente!

E elas, hoje, se sublevam contra a exploração

E acham que podem apregoar indignação.

Ah! Me desculpa, ex-Dona Iaiá,

Mas, resiliência não é insolência.

E, graças a Deus, por minha persistência!

Nossa atuação e nosso lugar

É simplesmente onde nós queiramos estar.

No paço popular,

Ou nas escolas tradicionais,

Na Presidência da República,

Ou nas cadeiras judiciais.

E para tanto são precisos

Ainda passos fortes e determinação,

Para dar a cada negrinha

Um livro em sua mão

Garantindo-lhe, assim,

O direito à total libertação.

Para o pensamento e para a escrita

De um roteiro de vitória,

Que reconheça à mulher negra

Um justo lugar na História.

 

Salve a gente preta do Brasil!

Salvem Marias, Chicas e Zefas!

Salvem as resistentes negras anônimas!

Salve, a Vereadora Marielle!

 

(*) Fala proferida no Seminário “A questão racial no capitalismo e no Direito do Trabalho”, organizado pelo GPTC, na Faculdade de Direito da USP, em 13/03/19.

 

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